21 de junho de 2017

Por que parei de escrever neste blog? - Parte II ou Método Montessori - O que eu fiz errado


Este post é a continuação de um desabafo iniciado dias atrás, que eu dividi para ficar um pouco menos enorme. Sinceramente, já escrevi posts bem longos e difíceis neste blog, alguns que demoraram dias para serem escritos, e foram fruto de muita pesquisa, noites mal dormidas e barras de chocolate com 70% de cacau. Mas esses dois últimos posts foram, sem dúvida, os mais difíceis para eu escrever (e reescrever dezenas de vezes), justamente por serem tão pessoais.

Por isso este aqui eu dividi em tópicos para você não desistir de ler antes dos próximos três minutos. Se você veio por dicas práticas com relação ao método Mntessori, pule logo para o final: o tópico 8. Toda  a parte inicial é a continuação do meu post anterior: "Por que deixei de escrever neste blog?"

1. De como este blog nasceu

Parece não ter nada a ver com assunto, mas tem, e eu explicarei ao final. Quando eu comecei este blog, em 2010, tinha acabado de terminar minha especialização em Psicopedagogia. Estava encantada com as possibilidades da aprendizagem infantil, ninguém tinha me falado muito sobre isso na Licenciatura, a não ser por umas aulas bem precárias de Psicologia da Educação. Por causa do meu estágio em Musicoterapia, eu estava especialmente animada com os efeitos da estimulação precoce em crianças com o desenvolvimento cognitivo comprometido. Era magnífico ver com aquelas crianças desenvolviam lindamente com os estímulos certos na hora certa, e como esses estímulos, aplicados por uma equipe multidisciplinar, variavam bastante de criança para criança. Eu queria muito estudar sobre isso, poderia fazê-lo pelo resto da vida.

Quando meus filhos nasceram tratei de usar os conhecimentos sobre estimulação precoce com eles, claro, porque como já pensaram outros teóricos antes de mim, se esses estímulos funcionavam em crianças com deficiências, em crianças sem essas deficiências, os estímulos deveriam funcionar também.

Foi por isso que batizei este blog de "Estimulando Meus Filhos". Eu queria fazer deste blog o diário de como esses estímulos repercutiam na vida dos meus pequenos e, consequentemente, como podiam ajudar outras crianças. Decidi que partilhar nossa experiência seria válido enquanto fosse algo bom para mim, para meus filhos e para outros pais.

2. Metodologias alternativas

Percebi rapidinho que eu não encontraria muito apoio para meus estudos na Pedagogia, apenas. Nossos cursos de Pedagogia (ao menos por aqui) me pareciam muito mais comprometidos com a formação político-social dos professores do que com a análise de métodos educacionais. E no curso de Psicopedagogia eu ouvi falar de metodologias totalmente inovadoras mas alternativas, que me pareciam muito mais interessantes do que aquela que se praticava na maioria das escolas (quando havia alguma metodologia de fato).

A primeira metodologia pela qual me apaixonei foi aquela que refletia minha realidade na época: o ensino de bebês através dos programas de Glenn Doman. Escrevi sobre a importância desse método para mim e para meus filhos AQUI NESTE POST, por ocasião da morte desse grande homem. Tentei, dentro do meu alcance, democratizar as informações sobre o método, e tem muita coisa sobre ele aqui neste blog (embora eu já não consiga responder todas as dúvidas a respeito, minha gente, minha memória é ruim! E já faz bastante tempo desde que deixei de estudar o método). Foi bom e importante para mim! A despeito de uma corrente que prega que o método Doman e outras propostas de ensino precoce podem deformar crianças e transformá-las em uma espécie de zumbis nerds depressivos, meus filhos continuaram bem felizes, saudáveis e crescendo... assim como minha curiosidade.

Fiz um artigo acadêmico sobre a metodologia Doman para o ensino da Música, uma área muito pouco explorada pelo método, e sofri para conseguir material de referência. Acabei desistindo de um mestrado na área por causa disso. Quando terminei, senti aquela sensação de dever cumprido: eu havia estudado TODOS os programas de Doman, aplicado vários deles, compartilhado isso com outras pessoas de maneira satisfatória e ajudado a criar um grupo de apoio para que os próprios pais se ajudassem (é o local ideal para quem tem dúvidas). Essa é a hora em que aparece a legenda "The End", e a trilha musical sobe o volume.

Depois de passear por várias outras "metodologias alternativas", acabei encasquetando com uma que me parecia também muito interessante: o método Montessori. Depois ouvi de uma grande professora da área que o adjetivo "alternativa" não é muito interessante para ser aplicado a este método, e hoje só tenho a concordar com ela, mas na época, para minha recente e pululante psicopedagogia, era só mais uma metodologia entre tantas.

3. Mais uma vez, a falta de referências. E sobre outras faltas mais preocupantes.

Não lembro exatamente onde ouvi falar pela primeira vez sobre Montessori, mas acho que foi nos blogs americanos sobre homeschooling. Aquilo me parecia fantástico! Lembro de ter feito um projeto de "cantinhos de aprendizagem na educação infantil" para uma escola onde ensinei, me baseando na experiência de mães e professoras americanas com o método Montessori. Mas não conseguia achar material acadêmico ou livros em português atualizados. Aquela metodologia cheirava a coisa guardada. De qualquer forma, os blogs me pareciam confiáveis porque aquelas mães e professoras faziam mesmo um trabalho fantástico, diferente de tudo que eu já tinha visto por aqui.

Num livro de Glenn Doman (Como Ensinar Seu bebê a Ler, 6ed da Artes e Ofícios, p. 85 ss), ele faz um louvor acalorado a Maria Montessori, e só bem depois eu pude perceber a influência do método dela sobre o método dele. É bem clara a inspiração dele nas ideias de Montessori, e são vários os pontos em comum entre os dois, embora os objetivos sejam completamente diferentes. Talvez eu escreva um post sobre isso depois, se não vou acabar fugindo demais do assunto. O fato é que Doman acaba por apontar as escolas Montessori como as melhores onde uma criança pode estudar.

Então estava ótimo, era essa a próxima metodologia sobre a qual eu iria me debruçar. Mas onde? Procurando pela internet encontrei o blog de outra mãe muito interessada no assunto, a Nádia. E através da Nádia fui parar no grupo "Montessori para Mamães", que ela administrava com primor e paixão contagiante. Minha primeira impressão ali foi: "Isso é o paraíso! Muita informação, muita informação, quero salvar tudo, quero fazer tudo, ai, meu Deus, preciso de outro HD!". Fiquei empolgada, e para mim, o mais importante agora era viver Montessori. Experimentar todas aquelas atividades fantásticas que eu via ali no grupo.

Intuitivamente eu pude apreender que o método Montessori tinha a ver com liberdade, autonomia, proporcionar à criança o desenvolvimento de todo o seu potencial individual. Então os 44 posts deste blog que estão marcados com a tag MONTESSORI têm a ver com isso. Em cada atividade pedagógica que eu identificava uma semelhança com um material Montessori, ou uma proposta de autonomia e desenvolvimento através da manipulação concreta, eu marcava "MONTESSORI". Hoje eu apagaria todas essas tags, na verdade morro de vergonha delas (provavelmente você vai me entender melhor mais à frente), e só não as apago pela preguiça de editar 44 posts: sou filha de Deus, Ele há de me perdoar e vocês também.

Sabe, eu estava com um filho de um ano, outro de três, e isso significava bem pouco tempo livre. Por causa da paixão pelo estudo da mente da criança eu me arrisquei a entrar como aluna especial num mestrado que tinha exatamente essa linha de pesquisa, e embora as aulas, temas e professores fossem magníficos, tive uma péssima experiência com certas nuances da vida acadêmica. Digamos que descobri bruscamente que ética, bondade e verdade não têm a ver com cultura e erudição. E isso me fez não apenas desistir do mestrado como desistir da área acadêmica. E o que não me fez desistir do ser humano foi justamente ver que tinha tanta gente sem grandes diplomas ou artigos científicos fazendo a diferença na vida das crianças. Eu queria aquilo para mim também. Dedicar minha vida a praticar o que eu acreditava me parecia a única coisa certa a fazer. E escrever, agora, seria só uma maneira de democratizar essa prática, nada mais.

Com o passar do tempo, minhas visitas no grupo Montessori para Mamães ficaram mais ou menos assim: "Hmmm... vamos ver.... quarto, quarto, quarto, quarto, quarto, educação cósmica, opa!! É esse". Ou "Quarto, quarto, quarto, quarto, quarto, quarto, material Montessori, é esse aqui". Um belo dia, estava eu nesse ritual quando de repente: "Quarto, quarto, quarto, Gabriel Salomão... quem é esse?" 

Ah, me emociono em lembrar da raiva e admiração que senti pelo Gabriel assim que o conheci. No momento em que o li pela primeira vez, rotulei: "É um acadêmico", daí porque a raiva. No momento seguinte eu não conseguia parar de ler o que ele escrevia, mesmo quando não concordava inteiramente, e assim nasceu a admiração. Convivemos por um curto tempo nos bastidores do grupo no Facebook. Na época o danado tinha um gênio difícil como o quê, e além da moderação do grupo, dividia comigo também uma forte tendência de deixar que a paixão escapasse pelas palavras, o que, às vezes, fazia meu sangue ferver. Muitas vezes o julguei excessivamente pragmático, ou irritantemente metódico (acreditem, estou morrendo de rir enquanto escrevo isso porque acho que me tornei assim em muitos aspectos... será que o método Montessori faz isso com todo mundo?). Quando o via se preocupar com as minúcias teóricas de uma atividade que alguma mãe partilhava ali, algumas vezes eu pensava: "Se ele tivesse filhos saberia que eu temos muito pouco tempo, e ele passa rápido demais, não podemos gastá-lo em com questões teóricas que só interessam a acadêmicos e seus calhamaços inúteis. Temos filhos precisando de algo agora, e estamos fazendo o nosso melhor com tão pouco!"

Ah, meu Deus, como é difícil escrever isso. Porque nesse quadro eu me vejo tão estúpida e cruel. Mas vou tentar acolher essa Luciana que ainda sofria um amadurecimento necessário e olhar para ela com alguma compaixão. Meu contato com o método começou por "atividades" que eu via como qualquer outra atividade pedagógica que já havia estudado. Portanto eu ainda não tinha alcançado a percepção de que o método Montessori tem bem pouco a ver com o que nós, adultos, podemos fazer. Na verdade ele é quase todo sobre o que as crianças podem fazer. Eu ainda estava sob a tensão do método Doman, onde eu era responsável por tudo. Aquilo era opressor, mas também era bom, ser mãe e ser valorizada por isso, não ser colocada aquém de um "especialista", mas ser a protagonista de todo o aprendizado do meu filho... aquilo era fantástico, me dava um senso de importância incrível. E em nossa sociedade, mães, especialmente as bem treinadas para terem "sucesso" podem se achar muito desimportantes em suas tarefas cotidianas. Nós amamos nossos filhos desesperadamente, mas não conseguimos confiar neles. Aprendemos a ter que controlar tudo, e agora não conseguimos apenas observá-los. Precisamos estar no centro de tudo.

Eu não tinha visto ainda o quanto o método Montessori me deixava livre de exigências e pressões, tanto quanto o fazia à criança. Eu não tinha visto que, no fim, tudo aquilo sobre adulto preparado tinha que ver com minha autodescoberta também, um processo muito mais interior que exterior. Eu não sabia ser livre. Eu só sabia ser só. Não enxergava ainda que tudo o que Maria Montessori viu, ela o fez enquanto estava unida à criança, e não como um ser separado, que comanda. Hoje me parece tão óbvio! Está tudo lá: as cadeiras, mesas, quadros, móveis, tudo no nível da criança, exatamente onde o adulto deve se colocar. Mas na época eu ainda não alcançava a criança... estava alta demais. 

E isso me fazia crer que o meu amor era o maior amor que alguém pode sentir no Universo. Já pensou? Talvez já. Se você é mãe também pode ter essa impressão, de que tem um amor tão imenso que se você se concentrasse bastante nele era capaz de seu coração estourar no peito. E todas aquelas noites em claro, aqueles projetos abandonados, aquela vida social renegada, aquela falta de tempo livre para se cuidar, aquela vida sentimental que não tem como voltar... tudo isso por quase nada: um balbucio, um pequeno sorriso, e nada mais importa nesse mundo. Seu bebê está bem e feliz, você não importa. Não deve importar. Tudo que importa é esse amor que ninguém mais tem, que ninguém mais sabe, só você. É um fardo imenso que você leva como Jesus descreveria: "um jugo leve e suave". Por que eu deveria me sentir egoísta por amar tanto meus filhos? Isso me fazia grande, tão grande quanto meu amor, eu pensava. Storge é como os gregos descreveram esse amor, que tem uma imensa capacidade de doação, mas que também pode cobrar, exigir e prender com garras afiadas.

Então um dia, não sei nem precisar exatamente quando, eu descobri que, não, meu amor não era o melhor nem o maior amor do mundo. O maior amor do mundo, é ser capaz de amar o que não é seu. Isso é bem decepcionante a princípio, mas quando você aceita essa verdade, você percebe que começa a amar melhor. E eu acho incrível que encontro essa percepção em todos os educadores montessorianos que conheço. E quanto mais eles estudam e se dedicam (porque esses professores parece que vivem para isso), mais eles demonstram esse tipo de amor universal, que vai muito além dos seus. Comecei a entender que o amor que o Gabriel Salomão, a Valquíria, a Edimara e tantos outros grandes professores montessorianos têm, é um amor pela criança. Pela minha, pela sua, pela criança lá do outro lado do mundo que eles nunca viram E isso os torna capacitados para falar de educação sobre meus filhos, independente de sua própria experiência com a maternidade ou paternidade, independente do tamanho do "meu" amor, pelo "meu" filho. Se o método Montessori tivesse um portal, quem entrasse por ele veria escrito, "Ó, vós que entrais, abandonai todos os pronomes possessivos" ahahha. Estou falando da evolução do amor, que parte de si mesmo para o universo, onde palpita harmoniosamente o coração de todas as coisas vivas. Como meu amor pode ser grande se ele não vai além de mim? Da minha casa? Para que eu levaria tanto amor no peito a devotar por uma única criatura, que um dia vai seguir seu caminho, talvez até longe de mim? Compreendi que este imensurável amor de mãe e pai é apenas um treino para amar mais e melhor cada criança que existe na Terra. E nisso está todo o sentido de amar: deixar que o amor cresça e se espalhe, e se doe como o perfume das lavandas à beira do caminho por onde passam tão heterogêneas criaturas. Se eu não for capaz de amar assim, a dádiva do amor materno ou paterno não terá cumprido em mim seu propósito.

Quando entendi tudo isso, entendi o que o que o Gabriel Salomão queria.Viver e praticar Montessori não queria dizer cumprir um currículo completo de metodologias de desenvolvimento cognitivo. Isso era apenas uma pequena parte da vida que Maria Montessori sonhou para todas as crianças do mundo. O que fazia aquele monte de "tarefas", "exercícios" e "habilidades" que eu buscava para meus filhos parecerem tão pequenos, tão secundários. Se tudo fosse como deveria ser segundo Montessori, estaríamos diante de crianças que poderiam construir um mundo mais justo, mais bonito, melhor, um mundo de paz. Por que eu estava ali quebrando a cabeça com aquela tábua que ensinava a multiplicar números de nove algarismos? 

Eu tenho que aproveitar este texto para manifestar minha gratidão em ter conhecido o Gabriel. Por causa dele eu fiquei suficientemente instigada para ir mais fundo - no método Montessori e em mim. Por causa dele fiz as pazes com o mundo acadêmico, que no fim, descobri ser o lugar onde quero ficar, e isso me trouxe uma imensa paz comigo mesma. Hoje, depois de acompanhar o trabalho que ele vem fazendo, me sinto ainda mais feliz de ter esse ser de luz. Sei que ele não gosta de elogios, e nem precisa deles, por isso não me preocupo se ele vai ler isso aqui ou não. De fato, isso tudo aqui é apenas pela minha necessidade de dizer: "muito obrigada" à vida, que nos dá a chance de encontrar as pessoas certas, no momento certo.

Esse tópico foi sobre um momento crítico na minha experiência com o método Montessori, momento que durou alguns anos, e que explica grande parte de minha introspecção de três anos para cá. Vamos adiante.

4. O Lar Montessori

Até então o que eu havia encontrado de acadêmico era muito restrito aos professores das escolas Montessori. Os livros que consegui, embora fossem uma iniciativa brilhante da ABEM, tinham edições esgotadas e páginas amareladas, daquelas que fazem qualquer orientador torcer o nariz. Também fui atrás dos manuais da ABEM, que eram bem técnicos, mas bastante práticos, e me ajudaram muito a entender uma coisa importante: ao contrário do método Doman, eu nunca chegaria ao fim desta minha vida na Terra esgotando tudo que deveria saber a respeito do método Montessori. Um indiano que tenha convivido com Maria Montessori expressaria o meu sentimento afirmando que seriam necessárias algo em torno de umas seis encarnações para conseguí-lo. 

Todo o tópico anterior foi para explicar como me convenci de que hoje, o melhor lugar para estudar sobre o método Montessori com textos em português, é o blog Lar Montessori, e os sites correlatos, como a Escola Maria, iniciativa do Gabriel Salomão também. Não importa que você se sinta como alguém que acabou de receber uma máquina fantástica, e esteja louca para botar a mão na massa, e se sinta sem paciência para ler o manual de instruções. Não importa que você queira materiais mais específicos, com instruções mais detalhadas e simples, com dicas simplificadas de como fazer o método funcionar o mais rápido possível. Não importa que seu tempo seja tão curto que pareça um sacrilégio investir tanto em leitura ao invés de simplesmente usar um modelo e ir fazendo. Não importa, sobretudo, que sua experiência com o método seja fantástica, e você ache que isso já está bom o suficiente (que foi exatamente o que eu fiz por muito tempo). Se você quer uma experiência real com o método Montessori, vá ao LAR MONTESSORI o máximo de vezes que puder e estude tanto quanto conseguir. Depois você faz todo o resto.  ESTE ARTIGO escrito pelo Gabriel também pode ajudar bastante.

"Quando vou saber que vou estar pronta para começar a colocar tudo em prática?". Você vai saber, acredite! Mais ainda, você vai começar a praticar sem muito esforço, sem nem se dar conta até que se perceba já fazendo aquilo que o método ensina. No mínimo, leia bastante sobre a filosofia/psicologia do método enquanto leva as metodologias para as crianças. A diferença entre começar do jeito certo, estudando os princípios do método, e começar copiando "atividades" que você adorou num blog sobre o assunto, é que do jeito certo vai ser menos esgotante e muito mais compensador. Palavra de quem já tentou o jeito mais difícil. 

Uma coisa que sempre amei no Lar Montessori foi o cuidado literário do Gabriel em escrever seus textos. Então não se trata só de uma leitura técnica. É inspirador, e vitalizante. Seu esmero com as palavras revela uma  força suave que nos conduz do início ao final do texto como quem plana. Ali você vai encontrar conhecimento de qualidade acessível a qualquer pessoa que se interesse pelo método. E acredite, em nenhum outro lugar você vai encontrar um roteiro tão simples e acertado de como descobrí-lo. Os trabalhos com os materiais estão devidamente contextualizados, e o perfeccionismo do Gabriel em cada detalhe produz materiais para pais e mães que, digo com segurança, você não vai encontrar em lugar nenhum em português, nem pagando por isso.

5. Montessori para a vida

(Pare e respire: "eu me acolho, eu  me perdoo, eu me aceito". Tenho que fazer isso antes de prosseguir porque afinal, mesmo quando errei, eu queria muito estar fazendo algo bom)

Agora eu não tinha mais como fugir: não existe separação entre teoria e prática no método Montessori. Deveria ser assim com qualquer pedagogia, mas é especialmente assim com Montessori. As bases do método, sua filosofia e psicologia, é o que fazem todo o resto funcionar. E se não for assim, pode até ser que as crianças aprendam algo bom sim, mas não será pelo método Montessori. Será pelo "Método coloque seu nome aqui".

Depois de me munir com os textos e indicações de leitura do Gabriel e de mais umas professoras ótimas que conheci no grupo, resolvi então, e depois de muito tempo, começar a estudar o método Montessori de fato. De bem com o mundo acadêmico, comecei a ir atrás de vários estudiosos do método. É muito rica a diversidade de interpretações do método Montessori em cada cultura, mas suas bases são sempre as mesmas, seus objetivos também, e essa unidade nos permite passear por vários autores e enxergar ao fundo a mesma figura por diferentes olhares: Maria Montessori, e seu sonho.

Por essa época eu penava entre o encantamento e a dúvida. O conhecimento do método me fazia questionar a abordagem que até então eu utilizava sem culpa. Todo aquele cuidado com as sistematizações, nomenclaturas, procedimentos, fazia bastante sentido mas exigia de mim que eu começasse de novo, do zero. Jogar fora tudo que eu tinha construído quando ainda não entendia plenamente o objetivo do método Montessori? Era muito. Mas me parecia o único caminho sensato. Me reconstruir.

O primeiro post deste blog marcado com a TAG MONTESSORI, foi ESSE AQUI, curiosamente, que falava sobre a organização dos livros num cantinho do QUARTO dos meninos ahhahah e o que tem de Montessori nele? Fora o fato de tornar os livros acessíveis às crianças, nada. Sabe, tudo bem se você conheceu Montessori por causa do quarto. Isso é mais uma piada interna que um problema, na verdade é maravilhoso que tanta gente hoje se pegue pensando sobre a maneira da criança ver o mundo, a perspectiva dela como alguém dentro da casa, como ser ativo no lar. Mas você precisa saber que Montessori é muito mais que uma tendência em arquitetura e decoração. Ainda que não pretenda estudar mais sobre o método, mas é respeitoso saber quem foi essa mulher. Quando nos damos conta do trabalho dela, é isso que sentimos, gratidão e profundo respeito por seu trabalho. Dói ver esse trabalho desvirtuado.

Um dos últimos posts marcados com a mesma TAG foi ESTE AQUI, um post comemorativo do aniversário de 143 anos de Maria Montessori.  Foi um dia ótimo, bem divertido! Aquele bolo de barras azuis e vermelhas ficou uma delícia, embora hoje eu ache que deveria ter feito num formato diferente, do jeito mais difícil, intercalando a pasta americana azul e vermelha numa mesma barra de bolo (hahahha isso não é sobre método Montessori, é sobre TOC). Mas nesse dia, eu me dei conta do que era inevitável: eu não podia mais escrever sobre o método Montessori. Eu podia escrever sobre atividades pedagógicas, sobre musicalização, e sobre mais um monte de coisas. Mas eu não tinha a formação necessária para escrever sobre Montessori. Quatro posts depois eu parei. Pode parecer duro, mas o nome disso é coerência. 

Certo dia li um artigo sobre musicalização escrito por um educador bem intencionado. Era bem escrito, era fruto de um evidente trabalho de pesquisa, mas ainda assim era um artigo cheio de lacunas e equívocos. Aquele educador não trabalhava com musicalização. Não era sua área de estudo, não fazia parte de sua vida em sala de aula. Era apenas um tema transversal da sua verdadeira área de estudo, e mesmo com muito boas intenções, o artigo acabou por desinformar sobre o que seria, de fato, um bom trabalho de musicalização. Aquilo me caiu como uma bomba na cabeça. Eu não estava fazendo a mesmíssima coisa? Eu estava me fazendo referência para centenas de pessoas como mãe que vivia o método Montessori, mas meu Deus, eu realmente poderia ser referência num assunto que não era meu principal objeto de estudo? Será que na ânsia de partilhar minhas experiências, eu não estava partilhando muito mais a minha versão do método Montessori, irresponsavelmente forjada fora de uma base científica que Maria Montessori se esforçou tanto por embasar todo o pensamento? Minha experiência era ótima, mas era justo eu a chamar de "método Montessori", quando minha prática pouco tinha de metódica?

Não estou dizendo que o que escrevi aqui não teve valor, teve sim! Mas nesta vida estamos sujeitos a mudar, a melhorar e a repensar nossos posicionamentos e práticas. Isso é saudável! Mudar para crescer é bom, ainda que exija algumas perdas. Respeito tudo que construí, mas não poderia continuar por esse caminho. Tinha que recomeçar mesmo. Isso ia exigir bastante. Mas era a coisa certa a fazer. 

6. Sonhos

Eu poderia apenas ter parado de escrever sobre Montessori e pesquisado outra "metodologia alternativa" um tiquinho mais fácil, algo com começo, meio e fim bem definidos e delimitados ao invés de continuar estudando um método que está eternamente aberto à construção. Mas eu preferi o que me parecia impossível: eu parei de escrever. 

Uma das primeiras lições que as crianças recebem quando chegam a uma escola Montessori, é a lição do silêncio. Foi por aí que eu decidi recomeçar também. Mas enquanto estudava a sério o método, começou a germinar em mim a semente de um sonho.  E esse sonho brotou em dois raminhos frágeis, cada um encurvado para um lado diferente da mesma plantinha. O primeiro, um site para mães, que servisse de guia do método no ensino domiciliar. Pois é, não abandonei a opinião de achar que é possível viver o método Montessori em casa. Essa é, na minha opinião, a forma mais rápida de democratizar o método Montessori. Porque as escolas Montessori são ilhas a quem poucas pessoas podem ter acesso, quer por questões de acesso geográfico mesmo, quer por questões financeiras. As tentativas de implantar o método no sistema público de ensino enfrentam questões políticas bem complicadas para quem não está envolvido no meio político. Então as casas das famílias podem ser o melhor lugar para viver o método Montessori, de um jeito que não faria Maria se revirar no túmulo.

O site seria exatamente aquilo que eu gostaria de ter encontrado quando comecei a me interessar pelo método:  vídeos e textos objetivos falando sobre questões teóricas e práticas, explorando a filosofia e como confeccionar e apresentar os materiais que já fiz e deram certo. Tenho trabalhado devagar e sempre nesse sentido. Passo meses sem tocar no projeto. De repente bate uma saudade, e passo dias debruçada sobre ele. É meu jeito TDA de ser. Tenho encontrado prazer em  fazer isso tudo sem nenhum interesse financeiro e numa jornada solitária, porque né? Se não for quase impossível não tem graça. Algumas boas almas já se ofereceram para me ajudar, e vêm me ajudando de diferentes maneiras, mas aqui dentro eu sinto que tenho que seguir solitariamente mesmo. É a minha jornada pessoal.

Ah, e o outro raminho de sonho. Sabe aquela minha mania de procurar por lacunas nos métodos pedagógicos? Em Montessori os encontrei também, claro, e aqui no Brasil, é uma riqueza hahaha Ainda não vou falar muito sobre o assunto, mas vou dizer o tema porque pra esse eu aceito toda ajuda possível: trata-se de pesquisar sobre o método Montessori e a correção de fluxo (alunos considerados "fora de faixa" no sistema público de ensino). Em um método que trabalha com períodos sensíveis e classes multisseriadas, como se encaixaria a realidade de milhares de crianças com sérias dificuldades de aprendizagem, que não foram devidamente letradas no período propício, e que por isso tiveram seu desenvolvimento limitado, sendo "punidas" com a retenção? Isso é mais que um desafio pedagógico, é um desafio social. Tive alunos no sexto, sétimo, oitavo ano do Fundamental II que não conseguiam ler e escrever. Tive alunos no EJA que eram analfabetos funcionais, impedidos de participar melhor na sociedade por causa disso. Como Maria Montessori, que começou o método a partir de crianças excluídas, lidaria com esse tipo de exclusão? Por tudo que já li, imagino que a bibliografia a respeito é escassa. Mas vamos lá, sinto que o universo conspira ao meu favor. O Congresso Internacional de Educação Montessori (AMI) deste ano, em Praga, tem exatamente o tema: "Montessori para mudanças sociais".

Se sobrar algum tempo, quero explorar mais o papel da educação musical no método Montessori, porque também é um assunto vago e pouco explorado aqui no Brasil, especialmente na também pouco explorada educação montessoriana nos níveis Fundamental II e Médio.

É possível que ainda demore um pouco para ver tudo isso tomar forma, uns quinze ou vinte anos ahahha mas acredito muito nesses sonhos. Cada pessoa apaixonada por Montessori tem uma maneira de sonhar a respeito do método, mas todos são sonhadores convictos.

7. O mercado Montessori

Enquanto eu me recolhi para estudar sobre o método Montessori, acabei perdendo o contato com os grupos e tudo que estava acontecendo ao redor do tema. Na época em que me retirei já tinha muita gente investindo no novo nicho de mercado. O que não era necessariamente ruim, porque isso tinha a ver com empreendedorismo materno e familiar, que, como falei no post anterior, são ideias que super apoio. Eu queria mais é que o pessoal crescesse e levasse a ideia de Montessori ao mundo. Outra coisa bem legal é que até poucos anos atrás, todo material Montessori a que as mães tinham acesso era importado, tudo em inglês, tudo caro, com taxa de importação, e o mercado brasileiro, muito restrito, praticava preços astronômicos, que só as escolas podiam pagar (e mesmo assim, nem todas). Comecei a ver gente fazendo coisa de qualidade, com carinho e compromisso com o método. Aquilo era ótimo, afinal.

De longe, eu desconfiava que tinha algo errado por uma ou outra coisa que via, aqui ou ali, nos poucos blogs e páginas que continuei acompanhando. Aí, um dia, eu tive uma ideia infeliz. Assim, por curiosidade mórbida, resolvi digitar "Montessori", na caixa de busca do site Mercado Livre.

Jesus Removing The Money Lenders From The Temple by James Edwin McConnell

Momentos de horror, é como eu descreveria o que senti. Lembrei de um trabalho que fiz, anos atrás, para o grupo Montessori para Mamães. Eram um slides mostrando a diferença entre os materiais do método e alguns brinquedos que tinham uma "inspiração Montessori", ou seja, trabalhavam alguns aspectos que os materiais também trabalhavam, embora nunca tenha sido minha intenção dizer que aqueles brinquedos podiam substituir os materiais. Era só por uma questão de ajudar as mães entenderem que nem tudo que era brinquedo pedagógico era "montessoriano" (não, não existe brinquedo pedagógico Montessori), mas se fosse para escolher um brinquedo, você podia escolher algo daquele tipo. E a tal da "inspiração Montessori" estendeu seus limites para o alto e além. Enfim, meninas do grupo, pelo amor de Deus, se ainda existir esse material por lá, apaguem por favor, queimem e joguem as cinzas no rio Ganges. Hoje senti todo o desserviço que fiz pelo método com isso, com meus posts sobre "adaptações do método" e tudo mais. Minha gente, que &%#$* é essa que se tornou o mercado Montessori?

Foi essa experiência que desencadeou em mim essa vontade de abrir o verbo e vir aqui no blog desabafar tudo que estava engasgado nesses três anos. Faz duas semanas que escrevo para tentar me livrar deste sentimento de angústia, de como o ser humano pode estragar coisas boas por causa do vil metal.

Eu resolvi estabelecer prêmios para categorizar meu desespero:

a) Prêmio vinheta do Filme Tubarão
Aqueles artigos que te fazem sentir que o objeto está perigosamente próximo de uma heresia, mas dá para passar. Eu achei fantástico ver tantos móveis "Montessori", porque o quarto dentro dessa filosofia era algo bem difícil e caro de se ter, e percebi que hoje você tem opções de vários preços e com uma qualidade excelente. Mas tem móveis bem "bonitinhos" que passam longe da proposta do método. E tem colchão Montessori. Rolo de espuma Montessori.  Ginásio de atividades de marca americana Montessori.  Pompons Montessori. Luminária Montessori. Varal de bandeirinhas Montessori. Almofadão personalizado de leitura da Marvel Montessori. Eles estariam perfeitos sem a legenda "Montessori" ao lado, por isso nem vou colocar fotos de exemplos aqui. Precisa mesmo colocar esse nome só pela evidente ânsia de explorar comercialmente o método?
E atentem que mesmo os melhores móveis precisam ser usados da forma correta. Um exemplo? A ideia do closet é ótima! Um móvel do tamanho apropriado para que a criança possa escolher como se vestir. Mas isso não significa você pegar todas as roupas da criança de dois anos e pendurar ali, junto com todos os sapatos e tudo mais. Significa separar algumas opções, duas ou três, no máximo cinco, assim como se faz com o rodízios de brinquedos, para que a criança possa escolher o que vai vestir ou calçar. Seria educadinho o vendedor explicar isso: como e porquê aquele item tem a ver com o método Montessori? Mas muitas fotos denunciam que alguns vendedores não poderiam responder a essa pergunta.


b) Prêmio Nazaré Tedesco

Aqueles artigos com alto potencial ofensivo, que confundem, humilham e jogam  o método Montessori escada abaixo, mas ainda se vendem como "gostosos e irresistíveis". São a "Inspiração Montessori" levada ao limite da irresponsabilidade. Para quem não conhece o método fica parecendo que aqueles brinquedos são usados no método Montessori, e isso é desonesto (a menos que o próprio vendedor acredite nisso, o que passaria a ser irresponsabilidade pura e simples mesmo).
Usar nomenclaturas erradas também pode causar confusão, por exemplo, o método não trabalha com flashcards. Flashcards, como o próprio nome sugere, são cartões para serem usados por adultos, que os mostram rapidamente às crianças, como intuito de ensiná-las nomes, símbolos ou mesmo palavras. Têm muito mais a ver com o método Domam, e é o queridinho das metodologias americanas para ensino infantil. Cartões de pareamento, cartões de nomenclatura, sim, são usados no método Montessori. E acho ótimo existir essa opção à venda em português, mas dar o nome certo aos materiais ajuda a educar também. Pote da calma técnica Montessori pode? Não pode. Montessori nunca fez pote da calma, que é uma ideia bem legal, e você pode usar com as crianças que estão sendo educadas pelo método Montessori numa boa, como todos os outros brinquedos que se encaixam nessa categoria. Mas não é método Montessori. E tudo bem, ok? Só deixe claro. Ninguém tem que perder seu dinheirinho por isso.

Exemplo bem ilustrativo:



c) Prêmio O Grito, de Edvard Munch

 Não carece de explicações. Esses artigos têm a única intenção de ganhar dinheiro em cima do nome do método, e demonstram que, ou o vendedor não entende nada do método e pouco se importa com ele, ou entende e mesmo assim afronta tudo o que ele significa. É feio, é vergonhoso, e se você é o vendedor desses artigos, por favor, repense sua proposta urgentemente.







Exemplos ilustrativos:



Método "Waldorf Montessori" - "É tudo pra mãe riponga mesmo"


Amigo, sério que você quer vender o livro por esse preço?


É, eu acho que é sério.


E sabe o que é mais curioso nisso? Maria Montessori nunca pensou em ganhar dinheiro em cima do seu método. Montessori não é uma patente, uma franquia, e foi pensado para alcançar todas as crianças do mundo, de qualquer condição financeira ou social. Como conseguir isso sem ter que comprar, comprar, comprar?

8. Método Montessori:  O que eu fiz de errado

Tive a ideia de escrever sobre isso quando, dia desses, li um post do blog "Pequefelicidad". Depois vi que tinha um post também no excelente site Criando com apego, falando sobre o mesmo assunto. Eu dei uma olhadela nos dois, mas o que vou falar aqui são dos MEUS erros. Aquilo que, depois de repensar minha prática, concluí que poderia ter feito melhor. Não posso dizer qual o problema na sua casa, mas talvez falando da minha, de alguma forma, eu consiga ajudar alguém.

a) Aplicar o método antes de conhecer suas bases

Para quem conseguiu o feito de ler todos os tópicos anteriores deste post, isso já ficou bastante claro. Para quem não leu fica o conselho: embora seja tentador começar a fazer todas aquelas coisas maravilhosas que você viu sobre o método Montessori agora mesmo, o melhor caminho é controlar a ansiedade e estudar um pouco sobre a filosofia do método antes de se preocupar com materiais e arrumação do ambiente. Isso não é a perda de tempo que pode parecer, pelo contrário, vai otimizar seu tempo e facilitar sua vida, além de lhe dar segurança na hora da prática e resultados coerentes com seus objetivos - que é bem interessante você saber quais são.


b) Misturar métodos pedagógicos

Maria Montessori acreditava que seu método servia suficientemente para educar todas as crianças do mundo, em qualquer idade ou circunstância. Ela trabalhou com crianças sem e com deficiências dos mais diversos tipos e graus, e continuou a acreditar que seu método beneficiaria a todas. Mencionei lá em cima minha formação como psicopedagoga, e acredito que isso me leva a ter uma visão particular quanto a essa questão. Acredito que cada criança deve ser vista de maneira única e, ao olharmos para ela, devemos levar em conta mais que nossas crenças e opiniões. Precisamos estar atentos a suas reais necessidades e isso pode significar tentar outros caminhos, quando um caminho - qualquer que seja ele - não se mostre viável.
Você tem o direito de escolher, a qualquer tempo, um método que melhor se adeque ao formato de aprendizagem da criança (o próprio método Montessori estimula essa observação para que o adulto reflita sobre o assunto). Pense também sobre qual é o objetivo da educação dos seus filhos, e então escolha algo coerente com o que você acredita. Observe como a criança responde a essa proposta, e tente fazê-lo da maneira mais isenta possível. Não é só sobre o que você acha bom, inteligente ou bonito, mas sobre o que você vive, ou sobre como quer viver, você e sua família. Se você se decidiu pelo método Montessori, não há necessidade de ficar agregando outros métodos na educação do seu filho. Na verdade isso pode se tornar confuso para a criança e para você. Falo por experiência própria. Só há necessidade de mudar uma abordagem metodológica se, depois de esgotadas todas as tentativas de ajustes teóricos e práticos, a criança não responder a essa abordagem satisfatoriamente. Essa avaliação deve levar em conta mais que suas expectativa quanto a ela, mas analisar, em conjunto com outros profissionais, questões emocionais, sua saúde física e psicológica, seu ritmo particular de desenvolvimento, fatores externos que podem alterar sua capacidade cognitiva, etc. Mas procure sempre ser coerente com seus objetivos para a educação da criança.
Houve um tempo em que eu me orgulhava de misturar tudo, fazer um samba do crioulo doido para cercar meus filhos de todas as possibilidades de aprendizagem de um tema. O que eu percebi a longo prazo é que isso pode acabar com você não conseguindo nenhum dos objetivos propostos pelos métodos que você misturou, e no mínimo, se cansando desnecessariamente (ou pior, cansando a criança desnecessariamente). Se acha que tem motivos para tentar coisas diferentes, faça uma cada coisa de uma vez, e escolha um caminho ou outro. Vai ser melhor até para avaliar o que realmente está dando melhor resultado. 
Cuidado também ao tentar adaptar outros métodos à proposta montessoriana. Um exemplo claro: a alfabetização no método Montessori utiliza um processo que se convencionou chamar "fônico". Mas nem todo método fônico se adequa ao método Montessori, que tem um sistema próprio, construído em harmonia com todas as outras áreas de conhecimento contempladas por ele. 
Em poucas palavras: você pode viver a filosofia do método Montessori em sua casa ou escola, ainda que não haja uma educação formal e específica pelo método Montessori. Você pode aprender bastante com os materiais Montessori e até utilizar esse aprendizado na maneira como lida com outros métodos. Mas caso a criança esteja sendo educada pelo método Montessori, o ideal é não combinar a ele outros métodos pedagógicos, a menos que uma intervenção psicopedagógica que tome o lugar do método se mostre realmente necessária. Ao menos, hoje essa é minha opinião.

c) Fazer uma leitura superficial do método

Não é culpa sua. Estamos sendo ensinados a isso o tempo todo. O Facebook, por exemplo, foi criado para nos dar a impressão de que nele temos acesso a um enorme conteúdo de conhecimento. O que está bem longe da verdade. Viramos leitores de "manchetes de jornais", e passamos a cultivar o vício de achar que ler algumas laudas sobre um assunto nos faz conhecedores aptos para opinar com segurança sobre ele. Isso está na raiz da maioria das discussões inúteis nas redes sociais. Pessoas com pouco conhecimento de um assunto, guerreando pelo direito de defender seu ponto de vista como se houvesse um dono da verdade. Bem, desde sempre a humanidade teve esse problema com pessoas querendo ser donos da verdade, mas antes isso costumava ficar restrito a ambientes onde o conhecimento era especializado, como universidades e afins. Agora as pessoas se acham no direito de invalidar a opinião do outro só porque leram - ou viram - algumas dúzias de artigos sobre opiniões igualmente terceirizadas. 
Se você está disposta ou disposto a conhecer e praticar o método Montessori, vá à direto à fonte, ou se aproxime ao máximo dela. Busque o conhecimento mais próximo da origem de tudo, e ainda que ser um seguidor seja inevitável nos dias de hoje, tente focar mais nas ideias ao invés de nas pessoas. O método Montessori exige estudo contínuo e aprofundado, e isso você não vai encontrar pronto e "mastigado" para lhe ser entregue, como o resultado de uma busca no Google. Isso é algo para se fazer ao longo da vida, um pouco de cada vez, com humildade e - a menos que você esteja estudando academicamente o tema -,  sem a obrigação de se tornar um especialista no assunto - ainda que de fato você acabe se tornando um. A ideia é apenas buscar mais motivação para viver melhor aquilo que você acredita. E não é preciso pressa, perfeição ou competição para isso. Apenas não se conforme em achar que já sabe, e está ótimo.

d) Confundir conceitos

É um erro comum e (quase sempre) não tem más intenções. O método Montessori utiliza palavras como "sensorial", "cósmico", "disciplina", "ordem", "realidade", "autonomia", "prêmios e castigos", "fônico", e outros nomes com um vasto campo semântico. Dependendo de sua experiência com aquele conceito, ou com uma visão dele, pode ser que você julgue mal o conceito do ponto de vista do método. Eu mesma passei um bom tempo achando que a tal "educação cósmica" do método Montessori tinha algo a ver com astrologia ou algo místico assim hahhaha
Nos meus passeios pela internet já encontrei várias críticas ao método Montessori, mas a grande maioria delas se fundamentava em concepções errôneas de certos aspectos, por causa de um mal entendido quanto aos conceitos. Já vi gente acusar Montessori de muita coisa absurda apenas por ignorância. Também já vi gente jurar que está praticando o método Montessori quando na verdade está desvirtuando um princípio do método. Vou dar exemplos para ser mais clara. No primeiro caso, já vi gente defender com ardor que Maria Montessori era fascista, por desconhecimento da história da vida dela, das bases do método e do próprio fascismo. Já vi também, dia desses, numa página de uma escola Montessori, alguém acusando o método Montessori de "humanista, e, portanto, propagador de um sentimento anticristão, em que a criança é levada a tal nível de autossuficiência que não precisa mais reconhecer a necessidade de Deus". Esta criatura certamente nunca ouviu falar sobre como Montessori tratou a espiritualidade na criança.  E tem aqueles que acusam as crianças montessorianas de saírem muito sérias nas fotos, de não parecerem alegres e sorridentes como as crianças da revista Crescer. Eu não sei se essas pessoas quando estão concentradas em seus trabalhos, especialmente quando ele está muito empolgante, conseguem ficar gargalhando ou fazendo cara de contentes, eu não consigo. O fato é que elas não compreenderam que o conceito de felicidade em Montessori não tem muito a ver com a euforia pregada pela nossas líquidas redes sociais, mas como um movimento de alegria interior que se exterioriza como serenidade e calmo contentamento. Claro que essas crianças também têm seu momento de gritar, pular, correr, rir alto, mas não enquanto fazendo seu trabalho, que elas levam muito a sério. E no entanto essas pessoas estão aí, propagando ideias falsas sobre o método com base unicamente em seu próprio entendimento do que o método é, sem nunca tê-lo estudado mais detidamente.
No segundo caso, já vi gente defender que a criança não precisaria se submeter a itens de segurança, como redes de proteção em janelas, por exemplo, porque o método desenvolveria nela tal autonomia que isso a tornaria capaz de manejar situações de risco sem problema algum. Mas o método Montessori nunca, de forma alguma, abre mão a segurança da criança pro causa da sua autonomia. E essa autonomia é devidamente estudada considerando seu estágio de desenvolvimento. Estamos diante de ciência, e ciência responsável.
Errei quando me permiti interpretações equivocadas, leituras parciais e experiências particulares que não poderiam ser apontadas como regra do método. Na dúvida, procure saber de uma fonte segura  - alguém que estude seriamente o método há mais tempo que você, ou nos livros da própria Maria Montessori - qual a real posição do método sobre o assunto que você tem dúvida. 

e) Dá pra fazer tudo com reciclável

Dá pra fazer um monte de coisas sim. Mas certos materiais do método Montessori não podem ser reproduzidos com material reciclável, sequer podem ser feitos em casa. Alguns desses materiais foram pensados para ter aspectos que precisam estar presentes num certo tipo de material, com certa dimensão exata, ou peso exato, cor ou textura, e ainda com a possibilidade de se conectar a outros materiais, levando em conta questões pedagógicas e estéticas... enfim, tem coisa que não dá mesmo. Mesmo com muita boa vontade, tem coisa que não vale a pena fazer sozinho. E se você insiste, o trabalho com aquele material pode ficar seriamente comprometido. Acredite, já me frustrei o suficiente para chegar a essa conclusão. O bom do Ensino Domiciliar é que o dinheiro que você gastaria com mensalidades de valor astronômico você pode investir em um bom material, e ainda sair no lucro.  

f) Tenho que comprar todos os materiais Montessori

Eu tenho que fazer um post mais detalhado sobre o assunto, porque parece que este item está contradizendo o anterior, mas por hora, acredite, por favor: você não tem que fazer isso. Esses materiais foram pensados por Montessori para a realidade de uma escola, onde eles vão ser usados indefinidamente por várias crianças. Se sua intenção é educar apenas seu filho, e se você não tem dez filhos em média, você pode confeccionar alguns materiais sem necessidade de comprar tudo. Pense que esse material precisa de um lugar para ser guardado, e que não pode ficar acumulado no espaço de aprendizagem da criança, que deve ter um número limitado de materiais a disposição. Já pensou na dor de cabeça de encontrar lugar pra guardar isso tudo? E quanto tempo você acha que seu filho vai usar esse material? Vale a pena gastar tanto?
Se você pensa que a China pode resolver seus problemas com finanças, pense melhor. Já comprei coisas da China, mas o primeiro entrave é encontrar empresas sérias, que sejam socialmente responsáveis, utilizem materiais atóxicos e, por fim, façam os materiais nas dimensões certas. Olha, isso pode ser muito mais difícil do que parece.  Se for comprar, é melhor buscar a opinião de quem já comprou de fontes seguras. Mas sempre é bom se perguntar sobre a real necessidade de comprar aquele material ao invés de tentar mandar fazer, ou fazer você mesmo. E é melhor ainda se perguntar se você tem que ter mesmo esse material. 
Se você tivesse que esquecer tudo que leu aqui e lembrar de apenas uma coisa, essa coisa seria: não compre tanto! Não vale a pena! Não é bom para você, nem para a criança, nem para o planeta, que já anda entulhado demais!

g) Consegui o material Montessori! Agora é só dar para meu filho e pronto.

Já vi algumas escolas tradicionais com materiais Montessori em suas salas de aula. Na sala do primeiro ano do meu filho mais velho eles ficavam em estantes ao alcance das crianças, e eventualmente os professores os utilizam para ajudar com alguma explicação da matéria do livro. Eu babei quando vi isso pela primeira vez imaginando como seria legal ele ter acesso àquilo. Mas meu filho gostava mesmo era de pegar o material e empilhar pra fazer uma torre bem grande enquanto a professora terminava de fazer as anotações nas agendas hahaha. No final aquele material lindo era usado como qualquer bloquinho de montar.
Cada material Montessori tem uma maneira de ser organizado e apresentado à criança, em certa sequência. E às vezes, tem várias maneiras de ser apresentado, dependendo do objetivo. Essa apresentação é essencial. Se você apenas deixa o material ao alcance da criança, e ficam, você e a criança, sem saber o que fazer com aquilo, esperando que uma mágica aconteça... as coisas não vão funcionar. É por isso que os professores das escolas Montessori precisam fazer cursos de aperfeiçoamento especificamente para lidar com esses materiais. Se você pensa em usar esses materiais em casa, deveria considerar seriamente a possibilidade de fazer um curso desse também. Se isso for inviável, há vídeos e tutoriais em sites sérios ensinando a usar diversos materiais. Pesquisar por isso antes de adquirir e usar o material com a criança é bastante sensato. 
Eu errei em não compreender logo que a organização dos materiais também é fundamental. Tudo deve ficar visível, nada amontoado, nenhuma coisa em cima da outra. Isso pode ser um desafio enorme em casa. Acredito que se você pretende usar os materiais Montessori em casa, deve reservar um espaço em especial para isso também. Mas isso não significa criar uma pequena escola, errei nisso também. A casa toda é o ambiente preparado. É interessante que a criança tenha a oportunidade de aprendizagem em todos os espaços possíveis, dentro e fora da casa.
Errei ainda em não observar a criança durante o seu trabalho com o material. Isso também é essencial: ele está servindo a seu propósito? Não é tão simples quanto comprar um brinquedo, entregar à criança e deixá-la ocupada com ele enquanto você lava a louça ou prepara o almoço. É preciso observá-la. E depois que entendi ainda errei mais uma vez, achando que era apenas eu quem observava. Acredite, você também é observada ou observado. Suas ações podem ser mais relevantes para o aprendizado da criança que o material que você dispôs no ambiente. As crianças não podem absorver o conceito de ordem se a rotina da casa é o caos e a organização é algo incidental. Elas não vão absorver tranquilidade num ambiente de tensão. Elas vão absorver aquilo que veem, que sentem, que tocam, a vida, exatamente como ela  se mostra ao redor.

h) Nem tudo que reluz é material dourado

Existem muitos jogos pedagógicos ótimos, para comprar e para fazer em casa. Alguns, inclusive, podem ser feitos a partir de ideias concebidas dos materiais Montessori. Mesmo considerando toda a abertura do método Montessori a contribuições metodológicas, há certos jogos que, mesmo sendo bem legais, não se encaixam nos princípios do método. O próprio material dourado, tal como é vendido no comércio em geral e usado hoje, tem uma relação simplória com a sua função original no método. A começar que o que chamamos de material dourado nem é o material dourado original, de fato. 
Veja as caixas sensoriais, por exemplo. Já fiz brincadeiras ótimas com elas, mas nem sempre dentro dos princípios do método, então elas não passaram disso, brincadeiras sensoriais. Cada caixa sensorial deve trabalhar um aspecto pedagógico por vez. Não importa o quão tentador seja encher a caixa com muitas coisas para a criança explorar (e passar um tempão ocupada disso). Uma coisa por vez é mais eficiente que dez ótimas coisas que não servem a um propósito definido.
Se tem dúvida se o material se adequa ao método, se pergunte:
- Ele permite que a criança trabalhe livremente e sem necessidade de auxílio (a criança pode fazer)?
- Ele tem um mecanismo próprio de controle de erro (a criança sabe como deve fazer)?
- Ele trabalha com apenas um aspecto a desenvolver, uma dificuldade por vez (a criança sabe o que está fazendo)?

i) "Somente o necessário, o extraordinário é demais".

Já faz tempo eu apaguei um vídeo em que eu mostrava minha sala em certa época de nossa existência como homeschoolers aqui em casa. O post ainda está por aí, e outros piores, mostrando como eu enlouquecia entre tantos materiais pedagógicos. Eu fiz da minha sala de visitas uma pequena sala de aula. E tentei organizar TUDO da melhor maneira. O problema nem era a organização em si, mas o TUDO. Quer dizer, era muita coisa. embora na época eu não visse isso porque achava que quanto mais coisas, mais possibilidades de aprendizado eu estaria criando, o que é um enorme engano. Quando comecei a fazer um trabalho pessoal de me perguntar o quê, entre tudo aquilo, era realmente necessário, comecei a ver a sala ir minguando, minguando, até virar de novo uma sala normal de casa de gente. Mesmo considerando que eu também guardava ali muitas coisas que usava com meus alunos, ainda era coisa demais. Meus filhos aprenderam depressinha a ignorar tudo aquilo, o cérebro das crianças usa mecanismos fantásticos para se proteger. Eles jamais conseguiriam lidar com tantas coisas. O problema é que meu cérebro velho penava para encontrar um jeito de limpar, manter a ordem e o espaço para aquelas coisas todas, e para quê? Desnecessidades. Doei grande parte, vendi algumas coisas, encaixotei algumas poucas com objetivos específicos (usar com minha sobrinha quando ela tiver idade, por exemplo). E, por Deus, ainda sobrou um bocado que estou para me livrar também!
Sinceramente, os grupos de mães também me faziam consumista. Eu via coisas incríveis que as mães usavam e ficava tentada a querer também. Quando tinha promoção de livros então, misericórdia, eu enlouquecia. Depois que saí do Facebook percebi que minhas compras com educativos diminuíram em uns 90%.  Mas isso é um problema meu, não dos grupos, que estão lá para mostrar possibilidades. Cada a nós ter equilíbrio para adequar essas possibilidades à nossa realidade, sem "criar" necessidades que não existem de fato.
Rever o que é necessário no ambiente é uma tarefa para ser feita regularmente. Isso é uma questão de sanidade.

j) Esperar que o método Montessori estimule a criança

O primeiro item foi explicando como nasceu este blog, só por causa do seu título: "Estimulando meus filhos". E um dos motivos pelos quais decidi não escrever mais aqui sobre Montessori é que a palavra "estimular" ganhou uma conotação que em nada combina como método Montessori. Então seria meio estranho partilhar experiências onde o estímulo não é o foco, num blog com esse título. E a essa altura também seria estranho mudar o título do blog.
Um erro bem comum dos pais de primeira viagem é pensar que todo estímulo é benéfico: se é bem colorido, é estimulante para a visão da criança! Se faz barulho, é estimulante para a audição da criança! Se tem carinha, vai ativar os neurônios da criança! E os brinquedos para crianças na primeira infância estão cheios de descrições sobre que aspectos eles estimulam. A impressão que se tem é que as crianças não são mesmo capazes de desenvolver nada sem algum treco que apite, arregale olhos ou tenha botões coloridos por perto. 
Quando começamos a conhecer o método Montessori percebemos o quanto isso tudo está longe de favorecer o desenvolvimento da criança, mas a cultura do "estímulo" não nos deixa facilmente! Ainda que paremos de comprar brinquedos barulhentos (na verdade não víamos a hora de nos livrar daquilo), e adotemos cores mais sóbrias na decoração do quarto, permanecemos à caça de estímulos. Enquanto olhamos as crianças trabalhando com materiais montessorianos pensamos: "Puxa! Como isso pode estimular meu filho a falar melhor, anda mais depressa, escrever mais bonito, calcular perfeitamente, ter uma coordenação motora que o faça subir que nem homem aranha pelas paredes?"
Eu errei toda vez que não entendi que mais importante que atividades estimulantes, era deixar que o potencial dos meus filhos desabrochasse, sem pressa, a seu tempo, se eles tinham tudo para que isso acontecesse. Quando vemos nossos filhotes andando pela primeira vez batemos palmas, pulamos, comemoramos. E mais palmas para quando escrevem uma palavra. Mais comemoração para quando leem seu nome. O que estamos tentando ensinar? Há uma série imensa de ações que constroem o ato de escrever uma palavra. O processo não é importante? Só o resultado merece palmas? E quando não houver palmas e euforia, é porque mamãe e papai estão decepcionados?
Errei até aprender que meus filhos não precisam de minha aprovação (e há muita gente adulta que vive como se ainda precisasse disso). Meus filhos precisam da minha atenção e acolhimento.

k) Esperar que o método Montessori torne a criança um ser com altas habilidades

Isso é uma consequência do item anterior. Procurar um método para fomentar altas habilidades é, inevitavelmente, ter que lidar com o inconveniente das altas expectativas. O objetivo do método Montessori não é ensinar uma criança a ser maravilhosa. Antes de tudo, o método Montessori vai nos fazer perceber que ela já o é.

l) Dizer à criança quando e quais materiais usar

Então você passou boa parte da madrugada estudando o blog que explicava como fazer aquela atividade fantástica e linda. No outro dia passou mais um tempão preparando tudo: material, ambiente, apresentação, tudo parece perfeito. Você não vê a hora de mostrar aquilo a seu filho, tem cer-te-za que ele vai AMAR, assim mesmo, com letras garrafais. Então ele chega e olha por algum tempo antes de sair, sem dar nenhum sinal de interesse. Você ainda tenta chamar sua atenção, mas ele parece mais interessado no bordado da almofada em cima do sofá que naquela belezura de material que você arrumou tão lindamente. Com alguma insistência você consegue posicionar o material na frente dele, que acaba jogando tudo para o ar. Você mostra mais uma vez como fazer, com novas entonações na voz, e ele torna a jogar tudo pra cima. Você respira fundo e recolhe a bagunça. Aquilo não é para você, afinal? Hahahha passei por isso tantas vezes. Eu errei também, mas sabe, tudo bem. As crianças costumam ter bastante paciência em ensinar os adultos, uma hora você vai acabar aprendendo.

Deixe-os livres para escolher, e uma vez que tenham escolhido, deixe-os trabalhar em paz.

m) Imitações, por mais próximas da realidade que sejam, não substituem a realidade

Eu não lembro exatamente onde li, acho que foi num livro do Glenn Doman, um trecho em que ele dizia que os brinquedos foram criados para agradar mais aos adultos que as crianças. Acredito que a frase se aplica bem a boa parte dos brinquedos que estão à venda hoje. Qualquer mãe tem uma história para contar sobre um brinquedo pelo qual ela se apaixonou e acabou comprando mais para si mais que para o filho. Mesmo as professoras montessorianas poderiam confessar que as tais miniaturas usadas no currículo Montessori para Linguagem e Cultura são absolutamente fascinantes. Lembro de passar horas, com algumas amigas, olhando e babando no site da Safari, fábrica especializada em miniaturas perfeitas. Na época em que o dólar chegou a R$ 1,99 fiz a festa com essas miniaturas! 
Eu errei em dar aos meus filhos lindos objetos que imitavam perfeitamente animais, frutas, ferramentas, utensílios e outras coisas de verdade, quando poderia não lhes ter roubado o prazer de ter contato direto com o que era real. Esqueça aquela parafernália de brinquedos que imitam coisas da vida prática. As crianças sabem, mesmo quando ainda bebês, a diferença entre algo real e uma imitação. Tente fazê-las trocar o controle remoto da TV ou seu celular por um de brinquedo. Elas são magneticamente atraídas pela realidade. Claro que nem sempre isso é possível ou seguro. Não vá fazer como certa mãe que conheci, que dizia que as crianças deviam observar os escorpiões livres em seu habitat natural. Mas pergunte-se sempre: não seria melhor explorar o aspecto que desejo apresentar com algo de verdade?

n)  Deixei tudo ao alcance das crianças. Agora minha casa está de pernas pra o ar, isso é Montessori?

Nunca esqueci do post de uma mãe, que colocou uma foto de sua sala completamente bagunçada, cheia de brinquedos espalhados doidamente pelo chão com uma legenda parecida com: "Método Montessori, expectativa e realidade". Teve gente que criticou, mas eu ri um bocado, e acho que a intenção dela era essa mesmo, fazer piada com nossas expectativas. Adoro fazer piada quando estou desesperada, é uma forma mais legal de relaxar ao invés de chorar hahhaha

Isso já aconteceu comigo também. Aquele quarto Montessori todo adaptado para o tamanho da criança e sua liberdade de pegar o que quiser, quando quiser. E de repente o caos instalado e uma criança ignorando seus apelos de ajudá-la a pôr tudo no lugar novamente. Parecia tão bonito nas fotos, não? "Será que na escola também é assim?", eu me perguntava, me achando o mais incompetente dos seres.

A própria Maria Montessori teve problemas com professores que entenderam sua proposta de forma equivocada. Você não tem que deixar TUDO ao alcance da criança, apenas o que for realmente necessário para ela. Você não tem que deixar ela pegar TUDO indiscriminadamente, apenas pelo prazer de tirar do lugar (e "tirar do lugar" e "jogar ao chão" parecem ser ocupações muito prazerosas para esses pequenos). A primeira coisa a entender é que só porque o ambiente está adequado, isso não quer dizer que a criança imediatamente começará a responder com ordem e disciplina. Tal como qualquer outro processo de aprendizagem, isso demanda tempo, tentativas e erros, repetição e observação por parte do adulto, que enquanto ela não consegue, está ali ao lado, ajudando a manter o ambiente em ordem. Se você entendeu as letras "e" e "h" deste tópico, não terá grandes problemas com isso, porque não haverá excesso de objetos disponíveis. Também atente que o aprendizado não envolve apenas questões cognitivas, mas também emocionais. E a criança pode usar o comportamento em relação às coisas do ambiente como forma de manifestar um incômodo emocional que ela ainda não consegue verbalizar.
Por fim, entenda que deixar tablets, jogos e brinquedos eletrônicos e afins ao alcance da criança não têm muito a ver com o método Montessori. Sou a favor de usar a tecnologia como complemento no método, mas em um ambiente equilibrado conforme a natureza da criança, e não conforme as nossas conveniências.

o) Pinçar atividades que parecem ótimas, mas acabam não funcionando tão bem

Às vezes parece que está tudo certo com o material que você preparou, mas ele não funciona como deveria com a criança. Eu já cometi um erro que pode explicar isso. Muitas vezes aquela atividade é precedida por várias outras, que preparam a criança, física e/ou mentalmente, para conseguir fazê-la. Pode parecer bem simples para você que já tem suas principais habilidade motoras desenvolvidas, que tem um pensamento lógico maduro, mas o método se preocupa em levar a criança a fazer essas conquistas suavemente, gradativamente. Todos os materiais e atividades estão conectados. Quando você pinça um do seu contexto, pode ser que ele funcione, pode ser que não, mas as chances da criança não aproveitar tudo que poderia daquele trabalho são bem maiores. Apenas cheque se não é melhor começar de um ponto mais atrás... quem sabe um ponto tão atrás que tenha a ver com o item "a" deste tópico

p) Vida prática, Linguagem, Matemática: tudo junto e misturado?

Falamos que os materiais Montessori têm como característica trabalhar uma dificuldade ou tema por vez. Mas às vezes um mesmo tema ou objetivo pode ser trabalhado em diferentes áreas. Por exemplo, a Linguagem é trabalhada na área de conhecimentos culturais. O trabalho sensorial está presente em materiais de música. A matemática pode envolver elementos de vida prática. E tudo bem com isso. Só tenha o cuidado de desenvolver uma área de cada vez, separadamente. Isso é algo tão importante para o método, que até as cores escolhidas para o fundo dos cartões, etiquetas, estampas e para os próprios materiais, sinalizam que eles pertencem a uma categoria distinta. A arrumação das estantes com materiais também separa os materiais por áreas de conhecimento, assim é muito perceptível para a criança quando ela  passa de uma área a outra. Categorizar as coisas facilita muito a vida da inteligência infantil.
Eu já errei quando vi uma atividade bem interessante onde eu trabalhava ao mesmo tempo, vida prática, linguagem, matemática, ciências, tudo "ensinando" um mesmo conceito. Isso pode parecer ótimo para você, mas pode ser confuso para a criança.

q) Passar tempo demais me preocupando se estou acertando

Olha quanta coisa errada eu fiz!!! Hahaha! Acho que vou ter que fazer outro post sobre o que acertei, para não me sentir tão mal comigo mesma... brincadeira. Errar tanto mostra o quanto trabalhei. O quanto aprendi com minhas tentativas, então tenho respeito pelos meus erros. Ele ajudaram a me construir, ainda vão fazer isso por mim várias vezes. Recomendo que você leia esses dois artigos sobre o tema: "Quando o adulto falha" e "É Para ser simples", do Lar Montessori. Deve haver outros blogs com leituras ótimas também, mas sinceramente eu não conheço, porque ando bem distante das redes sociais.
Uma das coisas que mais admiro na criança pequena é a forma como ela não tem medo de errar. Se você chegar numa classe de Educação Infantil com propostas como dançar, tocar um instrumento, inventar uma história, cantar ou compor uma música, vai ser surpreendido com a espontaneidade das crianças em ação, que fazem tudo isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Agora chegue numa classe de adultos com as mesmas propostas. Um monte de gente travada pelas próprias inseguranças. Com medo do que os outros vão pensar. Com medo de se expor. Com dificuldade em expressar até mesmo aquilo que eles podem fazer bem. Em que ponto começamos a perder o encanto com a vida? Em que momento deixamos que errar ou acertar fosse mais importante que experimentar e aprender?
Eu gosto demais de ler sobre o método Montessori, e quando começo a escrever, você podem perceber que não consigo parar facilmente. Mas o melhor do meu tempo, eu não quero para me tornar uma excelente "adulta preparada", ou uma "mãetessori" profissional. Quero o melhor do meu tempo para simplesmente estar com minha família. Amar pode ser tão simples e fácil, e isso é algo tão natural. Passe mais tempo com seus filhos. E deixe que o tempo passe sobre vocês como a luz de uma manhã especialmente ensolarada, que renova e alegra o coração sem que percebamos que ela está lá fazendo isso.

11 de junho de 2017

Por que parei de escrever neste blog?

Oi!!

Hoje eu anunciei para umas amigas queridas que ia escrever um post neste blog (uau, sério que já faz três anos desde o último post?), e usei as seguintes palavras: "não se trata de um recomeço, se trata de um desengasgo, se não eu morro".

É bem isso aí. Neste post eu pretendia falar de três coisas, até me propus, inicialmente, a dividí-lo em tópicos para tornar a leitura mais palatável, quiçá, menos cansativa. Mas ao terminar o primeiro tópico, decidi que era melhor colocá-lo como um post separado: este aqui, que você está lendo. Porque ele é enorme, porque é extremamente pessoal, dirige-se a um público bem restrito, e em nenhum momento representa a opinião oficial de um método, de uma instituição, de um movimento, de uma organização. É apenas uma pessoa falando de si, algo sem nenhuma intenção de convencer ninguém, nem de colher opiniões, nem debater temas polêmicos.

Pensei em gravar um vídeo, mas eu não sou mais objetiva falando que escrevendo, e sou da escola antiga, das blogueiras da era A.Y. (Antes dos Youtubers), então resolvi utilizar esse meio obsoleto, um tanto vintage, que afinal é o que mais gosto de fazer: a escrita.

Por que parei de escrever neste blog?

Antes de mais nada, eu não abandonei o blog. Mesmo depois de três anos continuo recebendo comentários e tentando responder a cada um deles, sempre que possível. O que mais recebo são manifestações de apreço, carinho e agradecimento pelo conteúdo do blog, que é basicamente uma partilha da minha história como mãe educadora na primeira infância dos meus filhos. Muitas vezes pensei em deletar o blog, mas esse carinho recebido pelas pessoas que passam por aqui, e tiram um tempinho para me fazer um afago acabou por me fazer ser complacente comigo mesma e deixar tudo aqui mesmo, mesmo aquelas ideias com as quais já não concordo totalmente, ou coisas que não faria mais do mesmo jeito. De alguma forma sinto que, mesmo essas ideias, podem acabar ajudando alguém. E quando sinto que devo, que escrevi alguma coisa muito fora de propósito mesmo, eu vou lá e edito o post. Críticas construtivas têm me ajudado nisso, e eu espero recebê-las sempre, pois me fazem crescer mais que os elogios. 

Dessa forma, meu "muito obrigada" a cada leitora e leitor que passa por aqui, faz perguntas, deixa recados, ou simplesmente lê e leva algo de bom consigo para seus filhos ou alunos. "Muito obrigada" também a quem me cobrou: "E aí, quando você vai voltar a escrever?". Não foram poucas pessoas, e eu sempre fiquei em dúvida sobre como responder, mas acho que devo essa resposta, e ei-la aqui.

Objetivamente, eu deixei de escrever aqui porque não consegui conciliar minha vida profissional como professora (Arte, quinto ao nono ano do ensino fundamental + EJA), a vida como mãe-de-dois-filhos-e-dois-cachorros-esposa-dona-de-casa-sem-faxineira, meu compromisso cristão com as crianças da igreja e este blog. Acho que o que pesou mesmo foi o emprego, porque exatamente no segundo semestre de 2014, quando assumi minhas turmas na prefeitura, cessaram os posts por aqui. 

Mas este meu silêncio está cheio de entrelinhas. Eu já andava desmotivada para participar dos grupos de mães (cheguei a sair dos grupos e abandonar o Facebook), e decepcionada com alguns rumos que eu via aquilo que eu amava e me dedicava ir tomando. Também estava decepcionada comigo mesma, entrei numa crise existencial mesmo (da qual nem sei se saí ainda). E muitas vezes quis vir aqui falar sobre isso, mas eu pensava em como isso podia repercutir, no quanto ia dar trabalho depois ter que explicar coisas que fossem mal entendidas, e olhava o último post, tão bonitinho e pensava: "Poxa, tá tão lindo encerrar o blog com esse post da árvore da adição... não tem necessidade de eu deixar como último post um texto amargurado."

Acredito que acabei me livrando de duas coisas críticas: a amargura, e a necessidade de agradar aos outros. Um post recente, de uma blogueira homeschooler que admiro muito, também me motivou: ela teve a coragem de escancarar nesse tema polêmico que é a exploração comercial do "homeschooling profissional", eu terminei de ler as palavras dela batendo palma de pé, que nem uma doida, na frente do meu monitor. Refleti sobre o meu medo de falar também, e reparei que me sinto preparada para dizer, entre outras verdades que apreendi da minha experiência: o homeschooling descambou para um nicho de mercado. Eu precisaria de um outro post (quem sabe?) para detalhar essa minha percepção. Mas vou tentar resumir ao máximo e não apontar ninguém, porque essa não é minha intenção aqui.

Quando eu comecei a escrever neste blog e entrei no primeiro grupo sobre homeschooling para mães do Facebook, o contexto era bem diferente do que vivemos hoje (parece que falo de dez anos atrás, coisa de cinco anos, mais ou menos). Quase não se falava sobre o assunto, era uma coisa meio underground mesmo, nosso grupo de moderadoras comemorou soltando fogos quando alcançamos os 100 membros. Todo material sobre homeschooling na prática que eu encontrava era pesquisando em sites americanos, australianos, russos. Eu e minhas amigas. Sim, eram amigas, e meus olhinhos enchem de lágrimas ao lembrar com saudades de cada uma e seus filhos. A gente dividia tudo. Quem é cristão deve conhecer aqueles versículos lá em Atos dos Apostolos 2:44: "Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum" e 4:32: "E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.". Se Tertuliano pudesse nos ver também diria, como uma vez se disse dos primeiros cristãos: "Vede como elas se amam!".

Nós usávamos nosso pouco tempo livre entre fraldas, livros e vassouras para procurar coisas legais para fazer com nossos filhos e dividir entre a gente. O foco era o enriquecimento pedagógico das mães, para beneficiar todos os pequenos. Mas não dividíamos só ideias, tarefinhas e planejamentos, nós tínhamos o momento de "chorar as pitangas", reclamar da vida, do cansaço, e receber o acolhimento de todo o grupo. Ninguém estava preocupado com outra coisa que não fosse ajudar, em todos os sentidos. E hoje eu fico ainda mais surpresa ao lembrar como nós éramos diferentes: opiniões, histórias de vida, contextos culturais, orientação religiosa e política. Mas conseguíamos conviver perfeitamente simplesmente porque esse contexto não era mais importante que o amor que sentíamos ali. Isso parece impossível de se conceber hoje em dia. Mas foi real: nós não tínhamos tempo a perder com coisas pequenas, e não fazia a mínima diferença que a colega ali gostasse mais da cor marrom, preferisse comida japonesa, rock progressivo ou tivesse votado no PT. Isso tudo forma a personalidade de uma pessoa também, mas nós nunca julgávamos umas as outras por causa dessas coisas, nós nos víamos como mães e irmãs. Todas. E nada além disso importava. 

Durante os primeiros anos de vida dos meus filhos, quando conseguir ir a um evento social era um luxo, a maioria dos meus amigos, solteiros, se afastou ou não entendia a nova fase louca em que eu me encontrava, e quando manter a sanidade era um ato extremamente solitário, essas amigas homeschoolers foram meus anjos. Penso na imensidão de coisas que aprendi com elas. Mas nenhuma é mais importante que o amor que recebi ali. Nada, nenhum conhecimento, método ou filosofia poderiam ter feito mais por mim e, consequentemente, por meus filhos, que a amizade estruturante com que me abençoaram.

Então o grupo começou a crescer. E só comemorávamos. Cada vez mais doidas tentando manter alguma ordem ali, facilitar o acesso à imensidão de informação que se acumulava, filtrar aquilo que não convinha, organizar os materiais práticos que vinham cada vez menos da totalidade do grupo. Começou o momento em que estávamos tirando do tempo de estar com nosso filhos para administrar aquilo, e as mães começaram a ficar receosas - com razão - de partilhar fotos e informações pessoais de seus pequenos com um grupo cada vez maior de pessoas desconhecidas. Como ter controle sobre isso? Algo começou a esfriar. Mesmo com o esforço de muitas pessoas, também começamos a nos ressentir de ter que levar o conteúdo do grupo nas costas, quando 80% apenas observava silenciosamente. Mas até aí, tudo bem, entendíamos que nem todo mundo podia dispor de tempo para pesquisar conteúdo, nem tinha a obrigação de partilhar nada. Mas o que fazer com as discussões? De repente, temas transversais começaram a invadir os diálogos que antes eram principalmente pedagógicos. E as manifestações de emoção, que antes eram apenas desabafos, passaram a ganhar uma conotação de rivalidade, com "alfinetadas", com uma necessidade excruciante de provar que se está certo, que o outro está errado, e mesmo as contribuições pedagógicas começaram a vir, às vezes, cobertas por um discurso ideológico dividindo o mundo em superior/inferior. Mesmo que todos ali fossem apenas seres humanos, sujeitos à mesma horizontalidade. Eu me recuso a falar de como a influência política sobre o Ensino Domiciliar contribuiu para isso, mas contribuiu. E em alguns casos, o descaracterizou. Não me refiro ao importante e necessário envolvimento político encabeçado pela ANED e seus batalhadores associados, que só tem rendido vitórias para o Homeschooling no Brasil. Me refiro à ideologia partidária mesmo, que se aproveita de um tema assim para servir de propaganda a seus interesses mesquinhos. Daí surgem mais divisões, e, dividido, qualquer movimento enfraquece. Crescer bem é crescer junto. Acromegalia é uma doença.

(Pausa para respirar: respira, respira... vamos lá, mantenha-se na linha, não caia na tentação de fuçar nos assuntos que você mesma julgou irrelevantes.) 

E teve a explosão comercial do ensino domiciliar. Sabe, até eu entrei nessa. Fiz um brechó hahaha. Era algo como "Brechó Estimulando", não lembro bem. Arranjei até um bonequinho muito feio para fazer propaganda, era um cérebro com olhos, nariz, boca sorridente, uma coisa horrível mesmo. Passei a garimpar coisinhas educativas para vender entre as colegas do grupo. Incentivei que outras fizessem isso, era uma maneira de incentivar as mães a colocarem a mão na massa, praticando aquilo que viam ali com seus filhos e, quem sabe, ganhar uns trocados. A parte dos trocados não deu certo porque o comércio, definitivamente, não é minha vocação. Acabei doando metade do que investi, e vendi o resto praticamente a preço de custo, só pela delícia de fazer uso do serviço dos Correios (modo ironia ativado). Mas sempre vi com bons olhos o empreendedorismo materno, isso é mesmo fantástico! Super apoio" E também as empresas familiares, que coisa linda! É muito amor envolvido, meu desejo é que "cresçam e se multipliquem". Mas começou a ficar bem evidente que no meio dessas iniciativas fantásticas, estavam surgindo e ganhando muita força, iniciativas de gente aproveitadora, mas entrando de "cordeiro" no mais novo nicho de mercado. Gente disposta a qualquer coisa para se dar bem enquanto puder "surfar na onda", gente que não cora de se aproveitar da ignorância alheia, mas se propõe a viver disso (não falo de falta de conhecimento, falo de ignorância pura e simples mesmo). E o pior: um monte de gente disposta a pagar muito bem por isso. 

Ah, sim, eu acredito que o Ensino Domiciliar deva ser democratizado para que todos que queiram possam ter essa opção, mas eu também acredito que algumas pessoas nem deviam pensar em ensino domiciliar. Deveria ter o bom senso de pensar: "Ok, é uma ideia legal e eu adoraria aplicar com meus filhos, mas não sou o perfil para o tipo de trabalho que isso exige, então vou procurar uma boa escola". Tudo bem. Podem ser motivos bastante justos: falta de disciplina, falta de vontade, falta de energia, eu sei o que são essas três coisas porque já as senti, e poderia elencar mais um monte de bons motivos para chegar à mesma conclusão, sem no entanto cair na rede da gente sem caráter que se aproveita desses motivos. 

Talvez a culpa seja dos próprios homeschoolers, que na ânsia de provarem que essa modalidade de ensino é maravilhosa - e de fato é - , acabam por fazer da escola uma "monstruosidade", algo como um tipo de lago de fogo e enxofre que nenhum pai ou mãe que ame seus filhos deveria confiar. E isso, com o perdão da sinceridade, é uma atitude irresponsável. Irresponsável porque você não pode pegar recortes de coisas horríveis que acontecem em escolas por aí para provar que TODAS as escolas do mundo são o inferno, a menos que você tenha ido em cada uma das escolas do mundo para provar sua tese. Eu sou educadora, e portanto, mais que ninguém sofro as consequÊncias de um sistema escolar falido e mórbido todos os dias. Mas apesar de nunca ter ido além das regiões Sudeste e Nordeste do meu país, conheço pessoalmente escolas fantásticas, que fazem um trabalho lindo e comprometido, ético e responsável. E conheço outras tantas escolas nacionais e internacionais que são modelos de educação absolutamente lindos. Escolas que são lugares acolhedores e perfeitos para muitas crianças - não todas, mas muitas. Escolas que têm falhas e erram, aprendem com seus erros e melhoram, EXATAMENTE como acontece com os pais que se propõem a fazer homeschooling. O fato de serem uma instituição não diminui sua importância, só porque um grupo de pessoas que têm condições financeiras, emocionais e intelectuais de fazer ensino domiciliar, impõe que o resto das mães deve se sentir bastante culpadas (mais do que já se sentem por outros motivos), por não serem o suprassumo da maternidade e não conseguirem educar seus próprios filhos. Colega, eu tive esse privilégio por alguns anos. Um privilégio. 

Mas o mundo não é feito só de mães nas minhas condições, o mundo é muito maior que o meu círculo existencial, e o mundo pode ser um lugar realmente horrível, onde ter o que dar de comer aos filhos é a preocupação primeira. Tem mães - algumas solteiras e sem apoio humano de nenhum tipo - que não podem fazer ensino domiciliar porque precisam trabalhar por comida e contas básicas, e os filhos delas precisam de escolas sim, a menos que você se proponha a ensiná-los, o que acredito que seria maravilhoso. Tem mães que são analfabetas funcionais e adorariam, mas não conseguem ensinar seus filhos porque primeiro precisam ter condições de educar-se no nível mais primário, e nunca tiveram a oportunidade de fazer isso dignamente (conheci várias no EJA que estão desafiando todas as probabilidades de se darem bem, lutando em tremenda desvantagem, e não tinha que ser assim). Tem pais e mães por aí, vivendo num mundo que você e eu não conhecemos, não imaginamos, nem nos nossos piores pesadelos, e ainda assim são ótimos mães e pais, fazendo o que podem nesse mundo cão e contando com a ajuda de professores dedicados que, mesmo contra todas as falhas do ensino institucional, dão o sangue pra fazer a diferença na educação das crianças - e fazem. 

E mesmo quando não é esse problema: é muito mais digno admitir que você não tem condições de fazer homeschooling, do que passar anos amargando frustrações e trocando os pés pelas mãos, perdida, enquanto seu filho cresce sem a assistência intelectual estruturada que merece só por causa da sua vaidade moral/filosófica/religiosa/algo que o valha. Devemos ser mais complacentes com a escola, porque ninguém sabe se, por uma dessas coisas tristes da vida, você vai ter que precisar dela. E se esse dia chegar a contragosto, você vai ter que engolir seu orgulho, procurar uma escola que se adeque medianamente à filosofia de sua família, passar a monitorar a equipe e participar das decisões, e concluir que isso pode resultar num ótimo trabalho para seu filho também. Que professores dedicados e parceiros podem ser aliados, e não inimigos. Que Deus abençoe todos os homeschoolers convictos para que nunca tenham que passar por isso, porque acredito que a maioria deles é mesmo muito bom no que faz, e meu desejo é que tenham muito sucesso, e provem pra multidão de incrédulos que é possível e bom que uma criança seja educada pelos pais até a idade adulta. Acredito nisso de verdade. Só não acredito na rigidez que divide, segrega, discrimina e alimenta a tristeza e o ódio.

Eu sei que as coisas vão mal, mesmo com um grupo que tem uma ideia muito boa, quando começam a surgir castas. Por exemplo, por causa de Rafael, que por si só decidiu não comer carne de nenhum tipo desde o quatro anos, eu comecei a me interessar por veganismo, para cuidar da alimentação dele. E nos grupos de veganos comecei a perceber que surgem as castas: ovolactovegetarianos, vegetarianos exclusivos, veganos, crudistas, seres que se alimentam de luz... e tem sempre alguém com aquela aura de "sou mais vegano que você, que usa shampoo com crueldade", "sou mais vegano que você, porque usei no aniversário do meu filho, pratos e canudos de papel biodegradável com sementes que brotam depois que eles são descartados". Perdão aos meus amigos que fazem um trabalho sério, lindo e ético no meio, mas tenho que dizer, no Ensino Domiciliar existem castas também: os que fazem homeschooling enquanto os filhos não são obrigados a ir para escola, os que fazem enquanto os filhos são obrigados a ir para escola (e aqui as subcastas, onde a superioridade e inferioridade variam tanto quanto as diferentes motivações: religiosas, filosóficas, psicológicas, pedagógicas, ou dos que odeiam a Pedagogia), e, por fim,  aqueles abelhudos que dizem ser homeschoolers mas mandam os filhos para a escola e fazem umas tarefinhas no contraturno. A maioria dos posts deste blog se encaixam no terceiro grupo. Ensino meus filhos desde bebês, mas quando ainda eram pequenos, por volta de dois anos, tive que, nas palavras da moda, "institucionalizá-los", ainda que isso não tenha significado terceirizar sua educação, em nenhum momento. Tanto que os valores que eles vivem hoje foram ensinados no meu colo, e antes que a escola tenha se proposto a isto, eles estavam letrados e sabiam as primeiras operações matemáticas, o que me valeu uma tranquilidade imensa: ensinei na fase que eles mais queriam aprender, então o trabalho foi bem mais fácil, e cedo não tive que me preocupar mais com dificuldades de aprendizagem por motivos pedagógicos. Mas botei a mão na consciência quando vi que a escola começava a exigir muito tempo para a educação intelectual, e eu tinha que dar tempo para meus meninos fazerem outras coisas da vida, afinal, educação não é só intelecto. 

Hoje a situação aqui em casa é a seguinte: Vinícius está terminando o Fundamental I, Rafael está no segundo ano, ambos fazem curso de inglês, ando a procura de um bom curso de esportes. Acompanho cada tarefa, e mais que isso, acompanho o interesse deles pelos assuntos estudados na escola e fora dela, e quando percebo algo que eles gostam, aprofundo. Vamos atrás de maneiras interessantes de conhecer mais sobre aquilo. Quando percebo que já dá para conversar sobre temas interessantes e importantes que a escola não aborda, eu introduzo. Como a maior preocupação que tive com sua primeira infância foi implantar neles o amor pelo conhecimento, não tenho dificuldades em ferramentas mais densas como livros e pesquisas. Mas também não lhes roubo o prazer de passeios, exposições, experiências, jogos e criação a partir de seus temas favoritos - coisa que a escola deles não dá muito espaço para acontecer, porque não cabe do plano pedagógico de uma escola tradicional mesmo, e eu me propus a conviver com isso aparando as rebarbas.

Talvez alguém tenha dúvidas quanto a isto: por qual motivo eu não fiz ensino domiciliar integral? Além das questões logísticas (eu e meu marido vivemos numa cidade distante de parentes colaterais, nossos vizinhos são duas empresas, nossos amigos estão loucos tocando a vida também), que não são um impedimento de forma alguma, mas pesam, há a minha forte vocação para o ensino, que eu já não podia conter nos muros da minha casa, e que Deus do céu plantou no meu coração para ser canal de Graça na vida de outras crianças também. Tenho certeza que Deus não vai condenar nenhuma santa professora por se dedicar a sua profissão, se não, vai ao menos lhes reservar um bom lugar no purgatório, onde aquelas que também foram mães dedicadas terão uma sala com ar condicionado (já que em vida não o tiveram em suas escolas), e eu estarei lá, feliz e contente, porque o Céu pode esperar quando ainda há tanto por fazer aqui na Terra. 

Mas tenho que confessar o principal motivo: eu sou uma pessoa indisciplinada. Vou dar um exemplo. Tenho formação como professora de Música. Tenho um piano em casa. Qual o dia e hora que dou aula de música/piano para meus filhos? O que der. É assim mesmo, porque concluí que se eu fosse esperar eu criar vergonha na cara de me disciplinar para ter um dia e hora certos, eu nunca daria essa aula. Então só me policio para que esse momento aconteça ao menos uma vez por semana. Às vezes, dependendo do interesse deles, acontece mais e por mais tempo, às vezes é só "pra não passar em branco", e eu continuo na esperança que vou melhorar, e fazer a coisa mais sistematizada, mas tenho que fazer algo, do jeito que consigo, agora. Pode ser que alguém em encaixe na categoria "preguiçosa" que eu citei aí em cima, mas eu argumentaria dizendo que a ideia até me seduz, mas não tenho tempo para ter preguiça na minha vida hoje. Sou indisciplinada mesmo. E eu JAMAIS conseguiria ser homeschooler integral sendo indisciplinada. Volto a afirmar: é um trabalho duro! Não é para todo mundo que quer! Embora todo mundo possa, e na realidade deva melhorar como ser humano para ser capaz de fazer cada vez mais e melhor pela educação dos seus filhos. Mas não é assim, que nem comer e coçar, só começar. É possivelmente o projeto mais audacioso e esgotante da sua vida, e se for assim será também o mais compensador. Não se deixe enganar por qualquer pessoa que faça parecer super fácil: o negócio é de arrancar os cabelos mesmo. Exige uma rede de apoio bem estruturada, e o problema não é nem dinheiro, é tempo e organização, doação e dedicação. Super vale a pena, mas se não for para ser assim, nem tente. Vá procurar uma boa escola, deve haver uma por aí. E acima de tudo, não se culpe por isso. Apenas continue melhorando e fazendo o seu melhor.

Não vou me demorar mais sobre isso, não é minha intenção aqui fazer um desfile de mágoas, ou críticas, e já escrevi muito mais do que gostaria, bem além daquele limite que exigirá de mim mais explicações para não correr o risco de ferir. Vou ter que confiar na minha parca capacidade de expressão e na capacidade de interpretação dos leitores inteligentes que tenho. Porque não vou responder comentários neste post, não vou fazer disso aqui uma discussão. Dou a cada um um direito de pensar o que quiser das minhas palavras, de fazer seus julgamentos a meu respeito (e agradeceria muito a caridade de não os expressar para mim, porque não sei lidar com isso, e meu plano de saúde não cobre psicólogos), porque no fim minhas palavras são só isso mesmo: minhas palavras, sem autoridade nenhuma nem preocupação de tê-la. Não querem doutrinar ninguém, não querem convencer ninguém, sua única intenção é arrancar isso tudo que guardo dentro de mim por anos, e colocar aqui, neste lugar que é o registro da minha vida como mãe educadora. 

Hoje só resta um resquício de tristeza quanto às coisas ruins, o resto o perdão já levou. Ademais, acho que fui fraca. Outras amigas resistiram e ainda estão lá no meio da fogueira, segurando a barra, mesmo tendo sido tão atingidas pela perplexidade como eu. Mas nesses tempos em que tanto se fala em diferentes capacidades de resiliência, tenho me dito que também devo me considerar digna de perdão. 

Quero dizer que sim, penso muito em voltar a escrever. Ainda tenho planos para este blog, de vez em quando tenho ideias e passo por experiências com os meninos que sinto que poderia dividir. Talvez eu tenha cansado de os expor também, de vez em quando eles enchiam o saco disso tudo. Como eu também. E acho que a gente merecia um descanso na nossa imagem, tem tanta coisa boa para se olhar por aí. Mas sim, quero voltar a escrever aqui, e talvez até o faça. Essa, porém, não é uma prioridade hoje. Antes disso tenho vários projetos, e quanto à educação no meio virtual um projeto, muito, muito grande, que está parado há anos também. E tem a ver com o assunto do próximo post: o método Montessori.

P.S.: Desconsiderem  as referências religiosas deste post. Sou evangélica de criação católica, religião pela qual tenho muito respeito, e hoje pertenço a uma religião que é considerada seita pela maioria dos evangélicos. E ainda convivo com o aleijão de tentar me definir como centro-esquerda-conservadora, algo que me faz uma espécie de Quimera detestável tanto na Direita quanto na Esquerda religiosa (e ainda mais detestável para a não religiosa).

P.S.2: Eu não fazia ideia do quanto este texto ia ser visualizado. Foram 1000 visualizações em pouco mais de 24 horas. Fiquei surpresa, e também grata pelas manifestações de empatia e carinho: estou em paz sim! Depois de escrever me senti aliviada . Mas como percebi que não tava falando pra uns dez gatos pingados resolvi editar o texto: retirei vários adjetivos que estavam sobrando e acrescentei alguns esclarecimentos e apontamentos. Desejo vida longa e próspera ao Ensino Domiciliar. Minhas experiências, boas ou ruins, são apenas minhas, mesmo quando partilhadas. E meu desejo é que cada pai e mãe que queira ensinar seus filhos possa ter as melhores experiências possíveis.