11 de junho de 2017

Por que parei de escrever neste blog?

Oi!!

Hoje eu anunciei para umas amigas queridas que ia escrever um post neste blog (uau, sério que já faz três anos desde o último post?), e usei as seguintes palavras: "não se trata de um recomeço, se trata de um desengasgo, se não eu morro".

É bem isso aí. Neste post eu pretendia falar de três coisas, até me propus, inicialmente, a dividí-lo em tópicos para tornar a leitura mais palatável, quiçá, menos cansativa. Mas ao terminar o primeiro tópico, decidi que era melhor colocá-lo como um post separado: este aqui, que você está lendo. Porque ele é enorme, porque é extremamente pessoal, dirige-se a um público bem restrito, e em nenhum momento representa a opinião oficial de um método, de uma instituição, de um movimento, de uma organização. É apenas uma pessoa falando de si, algo sem nenhuma intenção de convencer ninguém, nem de colher opiniões, nem debater temas polêmicos.

Pensei em gravar um vídeo, mas eu não sou mais objetiva falando que escrevendo, e sou da escola antiga, das blogueiras da era A.Y. (Antes dos Youtubers), então resolvi utilizar esse meio obsoleto, um tanto vintage, que afinal é o que mais gosto de fazer: a escrita.

Por que parei de escrever neste blog?

Antes de mais nada, eu não abandonei o blog. Mesmo depois de três anos continuo recebendo comentários e tentando responder a cada um deles, sempre que possível. O que mais recebo são manifestações de apreço, carinho e agradecimento pelo conteúdo do blog, que é basicamente uma partilha da minha história como mãe educadora na primeira infância dos meus filhos. Muitas vezes pensei em deletar o blog, mas esse carinho recebido pelas pessoas que passam por aqui, e tiram um tempinho para me fazer um afago acabou por me fazer ser complacente comigo mesma e deixar tudo aqui mesmo, mesmo aquelas ideias com as quais já não concordo totalmente, ou coisas que não faria mais do mesmo jeito. De alguma forma sinto que, mesmo essas ideias, podem acabar ajudando alguém. E quando sinto que devo, que escrevi alguma coisa muito fora de propósito mesmo, eu vou lá e edito o post. Críticas construtivas têm me ajudado nisso, e eu espero recebê-las sempre, pois me fazem crescer mais que os elogios. 

Dessa forma, meu "muito obrigada" a cada leitora e leitor que passa por aqui, faz perguntas, deixa recados, ou simplesmente lê e leva algo de bom consigo para seus filhos ou alunos. "Muito obrigada" também a quem me cobrou: "E aí, quando você vai voltar a escrever?". Não foram poucas pessoas, e eu sempre fiquei em dúvida sobre como responder, mas acho que devo essa resposta, e ei-la aqui.

Objetivamente, eu deixei de escrever aqui porque não consegui conciliar minha vida profissional como professora (Arte, quinto ao nono ano do ensino fundamental + EJA), a vida como mãe-de-dois-filhos-e-dois-cachorros-esposa-dona-de-casa-sem-faxineira, meu compromisso cristão com as crianças da igreja e este blog. Acho que o que pesou mesmo foi o emprego, porque exatamente no segundo semestre de 2014, quando assumi minhas turmas na prefeitura, cessaram os posts por aqui. 

Mas este meu silêncio está cheio de entrelinhas. Eu já andava desmotivada para participar dos grupos de mães (cheguei a sair dos grupos e abandonar o Facebook), e decepcionada com alguns rumos que eu via aquilo que eu amava e me dedicava ir tomando. Também estava decepcionada comigo mesma, entrei numa crise existencial mesmo (da qual nem sei se saí ainda). E muitas vezes quis vir aqui falar sobre isso, mas eu pensava em como isso podia repercutir, no quanto ia dar trabalho depois ter que explicar coisas que fossem mal entendidas, e olhava o último post, tão bonitinho e pensava: "Poxa, tá tão lindo encerrar o blog com esse post da árvore da adição... não tem necessidade de eu deixar como último post um texto amargurado."

Acredito que acabei me livrando de duas coisas críticas: a amargura, e a necessidade de agradar aos outros. Um post recente, de uma blogueira homeschooler que admiro muito, também me motivou: ela teve a coragem de escancarar nesse tema polêmico que é a exploração comercial do "homeschooling profissional", eu terminei de ler as palavras dela batendo palma de pé, que nem uma doida, na frente do meu monitor. Refleti sobre o meu medo de falar também, e reparei que me sinto preparada para dizer, entre outras verdades que apreendi da minha experiência: o homeschooling descambou para um nicho de mercado. Eu precisaria de um outro post (quem sabe?) para detalhar essa minha percepção. Mas vou tentar resumir ao máximo e não apontar ninguém, porque essa não é minha intenção aqui.

Quando eu comecei a escrever neste blog e entrei no primeiro grupo sobre homeschooling para mães do Facebook, o contexto era bem diferente do que vivemos hoje (parece que falo de dez anos atrás, coisa de cinco anos, mais ou menos). Quase não se falava sobre o assunto, era uma coisa meio underground mesmo, nosso grupo de moderadoras comemorou soltando fogos quando alcançamos os 100 membros. Todo material sobre homeschooling na prática que eu encontrava era pesquisando em sites americanos, australianos, russos. Eu e minhas amigas. Sim, eram amigas, e meus olhinhos enchem de lágrimas ao lembrar com saudades de cada uma e seus filhos. A gente dividia tudo. Quem é cristão deve conhecer aqueles versículos lá em Atos dos Apostolos 2:44: "Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum" e 4:32: "E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.". Se Tertuliano pudesse nos ver também diria, como uma vez se disse dos primeiros cristãos: "Vede como elas se amam!".

Nós usávamos nosso pouco tempo livre entre fraldas, livros e vassouras para procurar coisas legais para fazer com nossos filhos e dividir entre a gente. O foco era o enriquecimento pedagógico das mães, para beneficiar todos os pequenos. Mas não dividíamos só ideias, tarefinhas e planejamentos, nós tínhamos o momento de "chorar as pitangas", reclamar da vida, do cansaço, e receber o acolhimento de todo o grupo. Ninguém estava preocupado com outra coisa que não fosse ajudar, em todos os sentidos. E hoje eu fico ainda mais surpresa ao lembrar como nós éramos diferentes: opiniões, histórias de vida, contextos culturais, orientação religiosa e política. Mas conseguíamos conviver perfeitamente simplesmente porque esse contexto não era mais importante que o amor que sentíamos ali. Isso parece impossível de se conceber hoje em dia. Mas foi real: nós não tínhamos tempo a perder com coisas pequenas, e não fazia a mínima diferença que a colega ali gostasse mais da cor marrom, preferisse comida japonesa, rock progressivo ou tivesse votado no PT. Isso tudo forma a personalidade de uma pessoa também, mas nós nunca julgávamos umas as outras por causa dessas coisas, nós nos víamos como mães e irmãs. Todas. E nada além disso importava. 

Durante os primeiros anos de vida dos meus filhos, quando conseguir ir a um evento social era um luxo, a maioria dos meus amigos, solteiros, se afastou ou não entendia a nova fase louca em que eu me encontrava, e quando manter a sanidade era um ato extremamente solitário, essas amigas homeschoolers foram meus anjos. Penso na imensidão de coisas que aprendi com elas. Mas nenhuma é mais importante que o amor que recebi ali. Nada, nenhum conhecimento, método ou filosofia poderiam ter feito mais por mim e, consequentemente, por meus filhos, que a amizade estruturante com que me abençoaram.

Então o grupo começou a crescer. E só comemorávamos. Cada vez mais doidas tentando manter alguma ordem ali, facilitar o acesso à imensidão de informação que se acumulava, filtrar aquilo que não convinha, organizar os materiais práticos que vinham cada vez menos da totalidade do grupo. Começou o momento em que estávamos tirando do tempo de estar com nosso filhos para administrar aquilo, e as mães começaram a ficar receosas - com razão - de partilhar fotos e informações pessoais de seus pequenos com um grupo cada vez maior de pessoas desconhecidas. Como ter controle sobre isso? Algo começou a esfriar. Mesmo com o esforço de muitas pessoas, também começamos a nos ressentir de ter que levar o conteúdo do grupo nas costas, quando 80% apenas observava silenciosamente. Mas até aí, tudo bem, entendíamos que nem todo mundo podia dispor de tempo para pesquisar conteúdo, nem tinha a obrigação de partilhar nada. Mas o que fazer com as discussões? De repente, temas transversais começaram a invadir os diálogos que antes eram principalmente pedagógicos. E as manifestações de emoção, que antes eram apenas desabafos, passaram a ganhar uma conotação de rivalidade, com "alfinetadas", com uma necessidade excruciante de provar que se está certo, que o outro está errado, e mesmo as contribuições pedagógicas começaram a vir, às vezes, cobertas por um discurso ideológico dividindo o mundo em superior/inferior. Mesmo que todos ali fossem apenas seres humanos, sujeitos à mesma horizontalidade. Eu me recuso a falar de como a influência política sobre o Ensino Domiciliar contribuiu para isso, mas contribuiu. E em alguns casos, o descaracterizou. Não me refiro ao importante e necessário envolvimento político encabeçado pela ANED e seus batalhadores associados, que só tem rendido vitórias para o Homeschooling no Brasil. Me refiro à ideologia partidária mesmo, que se aproveita de um tema assim para servir de propaganda a seus interesses mesquinhos. Daí surgem mais divisões, e, dividido, qualquer movimento enfraquece. Crescer bem é crescer junto. Acromegalia é uma doença.

(Pausa para respirar: respira, respira... vamos lá, mantenha-se na linha, não caia na tentação de fuçar nos assuntos que você mesma julgou irrelevantes.) 

E teve a explosão comercial do ensino domiciliar. Sabe, até eu entrei nessa. Fiz um brechó hahaha. Era algo como "Brechó Estimulando", não lembro bem. Arranjei até um bonequinho muito feio para fazer propaganda, era um cérebro com olhos, nariz, boca sorridente, uma coisa horrível mesmo. Passei a garimpar coisinhas educativas para vender entre as colegas do grupo. Incentivei que outras fizessem isso, era uma maneira de incentivar as mães a colocarem a mão na massa, praticando aquilo que viam ali com seus filhos e, quem sabe, ganhar uns trocados. A parte dos trocados não deu certo porque o comércio, definitivamente, não é minha vocação. Acabei doando metade do que investi, e vendi o resto praticamente a preço de custo, só pela delícia de fazer uso do serviço dos Correios (modo ironia ativado). Mas sempre vi com bons olhos o empreendedorismo materno, isso é mesmo fantástico! Super apoio" E também as empresas familiares, que coisa linda! É muito amor envolvido, meu desejo é que "cresçam e se multipliquem". Mas começou a ficar bem evidente que no meio dessas iniciativas fantásticas, estavam surgindo e ganhando muita força, iniciativas de gente aproveitadora, mas entrando de "cordeiro" no mais novo nicho de mercado. Gente disposta a qualquer coisa para se dar bem enquanto puder "surfar na onda", gente que não cora de se aproveitar da ignorância alheia, mas se propõe a viver disso (não falo de falta de conhecimento, falo de ignorância pura e simples mesmo). E o pior: um monte de gente disposta a pagar muito bem por isso. 

Ah, sim, eu acredito que o Ensino Domiciliar deva ser democratizado para que todos que queiram possam ter essa opção, mas eu também acredito que algumas pessoas nem deviam pensar em ensino domiciliar. Deveria ter o bom senso de pensar: "Ok, é uma ideia legal e eu adoraria aplicar com meus filhos, mas não sou o perfil para o tipo de trabalho que isso exige, então vou procurar uma boa escola". Tudo bem. Podem ser motivos bastante justos: falta de disciplina, falta de vontade, falta de energia, eu sei o que são essas três coisas porque já as senti, e poderia elencar mais um monte de bons motivos para chegar à mesma conclusão, sem no entanto cair na rede da gente sem caráter que se aproveita desses motivos. 

Talvez a culpa seja dos próprios homeschoolers, que na ânsia de provarem que essa modalidade de ensino é maravilhosa - e de fato é - , acabam por fazer da escola uma "monstruosidade", algo como um tipo de lago de fogo e enxofre que nenhum pai ou mãe que ame seus filhos deveria confiar. E isso, com o perdão da sinceridade, é uma atitude irresponsável. Irresponsável porque você não pode pegar recortes de coisas horríveis que acontecem em escolas por aí para provar que TODAS as escolas do mundo são o inferno, a menos que você tenha ido em cada uma das escolas do mundo para provar sua tese. Eu sou educadora, e portanto, mais que ninguém sofro as consequÊncias de um sistema escolar falido e mórbido todos os dias. Mas apesar de nunca ter ido além das regiões Sudeste e Nordeste do meu país, conheço pessoalmente escolas fantásticas, que fazem um trabalho lindo e comprometido, ético e responsável. E conheço outras tantas escolas nacionais e internacionais que são modelos de educação absolutamente lindos. Escolas que são lugares acolhedores e perfeitos para muitas crianças - não todas, mas muitas. Escolas que têm falhas e erram, aprendem com seus erros e melhoram, EXATAMENTE como acontece com os pais que se propõem a fazer homeschooling. O fato de serem uma instituição não diminui sua importância, só porque um grupo de pessoas que têm condições financeiras, emocionais e intelectuais de fazer ensino domiciliar, impõe que o resto das mães deve se sentir bastante culpadas (mais do que já se sentem por outros motivos), por não serem o suprassumo da maternidade e não conseguirem educar seus próprios filhos. Colega, eu tive esse privilégio por alguns anos. Um privilégio. 

Mas o mundo não é feito só de mães nas minhas condições, o mundo é muito maior que o meu círculo existencial, e o mundo pode ser um lugar realmente horrível, onde ter o que dar de comer aos filhos é a preocupação primeira. Tem mães - algumas solteiras e sem apoio humano de nenhum tipo - que não podem fazer ensino domiciliar porque precisam trabalhar por comida e contas básicas, e os filhos delas precisam de escolas sim, a menos que você se proponha a ensiná-los, o que acredito que seria maravilhoso. Tem mães que são analfabetas funcionais e adorariam, mas não conseguem ensinar seus filhos porque primeiro precisam ter condições de educar-se no nível mais primário, e nunca tiveram a oportunidade de fazer isso dignamente (conheci várias no EJA que estão desafiando todas as probabilidades de se darem bem, lutando em tremenda desvantagem, e não tinha que ser assim). Tem pais e mães por aí, vivendo num mundo que você e eu não conhecemos, não imaginamos, nem nos nossos piores pesadelos, e ainda assim são ótimos mães e pais, fazendo o que podem nesse mundo cão e contando com a ajuda de professores dedicados que, mesmo contra todas as falhas do ensino institucional, dão o sangue pra fazer a diferença na educação das crianças - e fazem. 

E mesmo quando não é esse problema: é muito mais digno admitir que você não tem condições de fazer homeschooling, do que passar anos amargando frustrações e trocando os pés pelas mãos, perdida, enquanto seu filho cresce sem a assistência intelectual estruturada que merece só por causa da sua vaidade moral/filosófica/religiosa/algo que o valha. Devemos ser mais complacentes com a escola, porque ninguém sabe se, por uma dessas coisas tristes da vida, você vai ter que precisar dela. E se esse dia chegar a contragosto, você vai ter que engolir seu orgulho, procurar uma escola que se adeque medianamente à filosofia de sua família, passar a monitorar a equipe e participar das decisões, e concluir que isso pode resultar num ótimo trabalho para seu filho também. Que professores dedicados e parceiros podem ser aliados, e não inimigos. Que Deus abençoe todos os homeschoolers convictos para que nunca tenham que passar por isso, porque acredito que a maioria deles é mesmo muito bom no que faz, e meu desejo é que tenham muito sucesso, e provem pra multidão de incrédulos que é possível e bom que uma criança seja educada pelos pais até a idade adulta. Acredito nisso de verdade. Só não acredito na rigidez que divide, segrega, discrimina e alimenta a tristeza e o ódio.

Eu sei que as coisas vão mal, mesmo com um grupo que tem uma ideia muito boa, quando começam a surgir castas. Por exemplo, por causa de Rafael, que por si só decidiu não comer carne de nenhum tipo desde o quatro anos, eu comecei a me interessar por veganismo, para cuidar da alimentação dele. E nos grupos de veganos comecei a perceber que surgem as castas: ovolactovegetarianos, vegetarianos exclusivos, veganos, crudistas, seres que se alimentam de luz... e tem sempre alguém com aquela aura de "sou mais vegano que você, que usa shampoo com crueldade", "sou mais vegano que você, porque usei no aniversário do meu filho, pratos e canudos de papel biodegradável com sementes que brotam depois que eles são descartados". Perdão aos meus amigos que fazem um trabalho sério, lindo e ético no meio, mas tenho que dizer, no Ensino Domiciliar existem castas também: os que fazem homeschooling enquanto os filhos não são obrigados a ir para escola, os que fazem enquanto os filhos são obrigados a ir para escola (e aqui as subcastas, onde a superioridade e inferioridade variam tanto quanto as diferentes motivações: religiosas, filosóficas, psicológicas, pedagógicas, ou dos que odeiam a Pedagogia), e, por fim,  aqueles abelhudos que dizem ser homeschoolers mas mandam os filhos para a escola e fazem umas tarefinhas no contraturno. A maioria dos posts deste blog se encaixam no terceiro grupo. Ensino meus filhos desde bebês, mas quando ainda eram pequenos, por volta de dois anos, tive que, nas palavras da moda, "institucionalizá-los", ainda que isso não tenha significado terceirizar sua educação, em nenhum momento. Tanto que os valores que eles vivem hoje foram ensinados no meu colo, e antes que a escola tenha se proposto a isto, eles estavam letrados e sabiam as primeiras operações matemáticas, o que me valeu uma tranquilidade imensa: ensinei na fase que eles mais queriam aprender, então o trabalho foi bem mais fácil, e cedo não tive que me preocupar mais com dificuldades de aprendizagem por motivos pedagógicos. Mas botei a mão na consciência quando vi que a escola começava a exigir muito tempo para a educação intelectual, e eu tinha que dar tempo para meus meninos fazerem outras coisas da vida, afinal, educação não é só intelecto. 

Hoje a situação aqui em casa é a seguinte: Vinícius está terminando o Fundamental I, Rafael está no segundo ano, ambos fazem curso de inglês, ando a procura de um bom curso de esportes. Acompanho cada tarefa, e mais que isso, acompanho o interesse deles pelos assuntos estudados na escola e fora dela, e quando percebo algo que eles gostam, aprofundo. Vamos atrás de maneiras interessantes de conhecer mais sobre aquilo. Quando percebo que já dá para conversar sobre temas interessantes e importantes que a escola não aborda, eu introduzo. Como a maior preocupação que tive com sua primeira infância foi implantar neles o amor pelo conhecimento, não tenho dificuldades em ferramentas mais densas como livros e pesquisas. Mas também não lhes roubo o prazer de passeios, exposições, experiências, jogos e criação a partir de seus temas favoritos - coisa que a escola deles não dá muito espaço para acontecer, porque não cabe do plano pedagógico de uma escola tradicional mesmo, e eu me propus a conviver com isso aparando as rebarbas.

Talvez alguém tenha dúvidas quanto a isto: por qual motivo eu não fiz ensino domiciliar integral? Além das questões logísticas (eu e meu marido vivemos numa cidade distante de parentes colaterais, nossos vizinhos são duas empresas, nossos amigos estão loucos tocando a vida também), que não são um impedimento de forma alguma, mas pesam, há a minha forte vocação para o ensino, que eu já não podia conter nos muros da minha casa, e que Deus do céu plantou no meu coração para ser canal de Graça na vida de outras crianças também. Tenho certeza que Deus não vai condenar nenhuma santa professora por se dedicar a sua profissão, se não, vai ao menos lhes reservar um bom lugar no purgatório, onde aquelas que também foram mães dedicadas terão uma sala com ar condicionado (já que em vida não o tiveram em suas escolas), e eu estarei lá, feliz e contente, porque o Céu pode esperar quando ainda há tanto por fazer aqui na Terra. 

Mas tenho que confessar o principal motivo: eu sou uma pessoa indisciplinada. Vou dar um exemplo. Tenho formação como professora de Música. Tenho um piano em casa. Qual o dia e hora que dou aula de música/piano para meus filhos? O que der. É assim mesmo, porque concluí que se eu fosse esperar eu criar vergonha na cara de me disciplinar para ter um dia e hora certos, eu nunca daria essa aula. Então só me policio para que esse momento aconteça ao menos uma vez por semana. Às vezes, dependendo do interesse deles, acontece mais e por mais tempo, às vezes é só "pra não passar em branco", e eu continuo na esperança que vou melhorar, e fazer a coisa mais sistematizada, mas tenho que fazer algo, do jeito que consigo, agora. Pode ser que alguém em encaixe na categoria "preguiçosa" que eu citei aí em cima, mas eu argumentaria dizendo que a ideia até me seduz, mas não tenho tempo para ter preguiça na minha vida hoje. Sou indisciplinada mesmo. E eu JAMAIS conseguiria ser homeschooler integral sendo indisciplinada. Volto a afirmar: é um trabalho duro! Não é para todo mundo que quer! Embora todo mundo possa, e na realidade deva melhorar como ser humano para ser capaz de fazer cada vez mais e melhor pela educação dos seus filhos. Mas não é assim, que nem comer e coçar, só começar. É possivelmente o projeto mais audacioso e esgotante da sua vida, e se for assim será também o mais compensador. Não se deixe enganar por qualquer pessoa que faça parecer super fácil: o negócio é de arrancar os cabelos mesmo. Exige uma rede de apoio bem estruturada, e o problema não é nem dinheiro, é tempo e organização, doação e dedicação. Super vale a pena, mas se não for para ser assim, nem tente. Vá procurar uma boa escola, deve haver uma por aí. E acima de tudo, não se culpe por isso. Apenas continue melhorando e fazendo o seu melhor.

Não vou me demorar mais sobre isso, não é minha intenção aqui fazer um desfile de mágoas, ou críticas, e já escrevi muito mais do que gostaria, bem além daquele limite que exigirá de mim mais explicações para não correr o risco de ferir. Vou ter que confiar na minha parca capacidade de expressão e na capacidade de interpretação dos leitores inteligentes que tenho. Porque não vou responder comentários neste post, não vou fazer disso aqui uma discussão. Dou a cada um um direito de pensar o que quiser das minhas palavras, de fazer seus julgamentos a meu respeito (e agradeceria muito a caridade de não os expressar para mim, porque não sei lidar com isso, e meu plano de saúde não cobre psicólogos), porque no fim minhas palavras são só isso mesmo: minhas palavras, sem autoridade nenhuma nem preocupação de tê-la. Não querem doutrinar ninguém, não querem convencer ninguém, sua única intenção é arrancar isso tudo que guardo dentro de mim por anos, e colocar aqui, neste lugar que é o registro da minha vida como mãe educadora. 

Hoje só resta um resquício de tristeza quanto às coisas ruins, o resto o perdão já levou. Ademais, acho que fui fraca. Outras amigas resistiram e ainda estão lá no meio da fogueira, segurando a barra, mesmo tendo sido tão atingidas pela perplexidade como eu. Mas nesses tempos em que tanto se fala em diferentes capacidades de resiliência, tenho me dito que também devo me considerar digna de perdão. 

Quero dizer que sim, penso muito em voltar a escrever. Ainda tenho planos para este blog, de vez em quando tenho ideias e passo por experiências com os meninos que sinto que poderia dividir. Talvez eu tenha cansado de os expor também, de vez em quando eles enchiam o saco disso tudo. Como eu também. E acho que a gente merecia um descanso na nossa imagem, tem tanta coisa boa para se olhar por aí. Mas sim, quero voltar a escrever aqui, e talvez até o faça. Essa, porém, não é uma prioridade hoje. Antes disso tenho vários projetos, e quanto à educação no meio virtual um projeto, muito, muito grande, que está parado há anos também. E tem a ver com o assunto do próximo post: o método Montessori.

P.S.: Desconsiderem  as referências religiosas deste post. Sou evangélica de criação católica, religião pela qual tenho muito respeito, e hoje pertenço a uma religião que é considerada seita pela maioria dos evangélicos. E ainda convivo com o aleijão de tentar me definir como centro-esquerda-conservadora, algo que me faz uma espécie de Quimera detestável tanto na Direita quanto na Esquerda religiosa (e ainda mais detestável para a não religiosa).

P.S.2: Eu não fazia ideia do quanto este texto ia ser visualizado. Foram 1000 visualizações em pouco mais de 24 horas. Fiquei surpresa, e também grata pelas manifestações de empatia e carinho: estou em paz sim! Depois de escrever me senti aliviada . Mas como percebi que não tava falando pra uns dez gatos pingados resolvi editar o texto: retirei vários adjetivos que estavam sobrando e acrescentei alguns esclarecimentos e apontamentos. Desejo vida longa e próspera ao Ensino Domiciliar. Minhas experiências, boas ou ruins, são apenas minhas, mesmo quando partilhadas. E meu desejo é que cada pai e mãe que queira ensinar seus filhos possa ter as melhores experiências possíveis.

20 comentários:

  1. Maravilhoso seu texto, Luciana!! Quando entrei no grupo de HS e comecei a seguir seu blog, uns 4 anos atrás, eu queria fazer HS, mas logo percebi que não daria conta. Mesmo assim permaneci no grupo porque o conteúdo dele é riquíssimo e sou muito grata à organização de vocês! Sempre que quero fazer alguma atividade, sei que posso buscar lá.
    Fique em paz, e se lembre sempre que você plantou no coração de muitos pais a semente do querer estar presente na educação dos filhos.

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    1. Oi, Marília! Lembro de você sim! Obrigada pelo carinho.

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  2. Lu! Saudade de vc e do seu blog q muito muito muito me ajudou! Também compartilho do mesmo sentimento quanto ao grupo, tenho muita saudade da vibe que era antes: intimista, familiar e de apoio.
    Além da troca que era incrível! lembra do desafio do ano onde cada mês tinha um tema para atividades? Nunca participei de nada virtual que fosse tão real e próximo! Saudades....
    Bola pra frente e vamos focar no que e bom!
    Eu aprendi muito aqui no seu blog e no grupo e se hj consigo fazer homeschooling de forma integral com meu filho, devo muito a vc!
    Gratidão
    Marcielly

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    1. Marcielly, como fiquei feliz de ter notícia suas! Ah, aqueles temas mensais eram o máximo! Um grande abraço para você e seu filho!

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  3. Oi Luciana! Encontrei o sei blog esses dias e fiquei feliz em ler um post seu tao recente..
    até tinha escrito em um post seu antigo se teria como vc me disponibilizar o material de leitura do metodo glen doman. Eu tentei de todas as formas baixar, mas nao consegui. Se for possivel, me envia por email: camilaabath@yahoo.com.br
    Grata
    Camila

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    1. Camila, comenta de novo no post que você viu para eu saber qual é o material. Se eu ainda tiver, te envio sim, beijo.

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    1. Patrícia, obrigada, foi só um desabafo. Mas obrigada pelo carinho.

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  5. Luciana, maravilhoso texto, muito bom receber notícias de vcs! Bjs! Naná

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    1. Naná, meu amor, que saudade! Obrigada por deixar um carinho aqui! Beijo para você e sua família linda!

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  6. Lu, (super íntima, porque me sinto assim),
    Eu não tenho palavras para expressar minha gratidão a vc. Seu blog foi uma Bíblia nos 5 primeiros anos dos meus filhos. Consegui alfabetiza-los graças a sua maravilhosa ajuda, além de ajudá -los nas primeiras descobertas da matemática tb. Hoje eles estão com 6, já mais independentes, e eu tb consigo me dedicar mais a minha profissão. Seus ensinamentos nunca serão esquecidos. Muito, muito obrigada mesmo. E que vc tenha paz e tranquilidade no seu coração para sempre seguir a vontade de Deus em sua vida. Um forte abraço!

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    1. Fá! kkkk obrigada, fico extremamente feliz em ter podido contribuir de alguma forma com seu trabalho. Parabéns pela dedicação, pelas vitórias, e grata por todas as bênçãos, que elas também te alcancem a cada dia. Abração!

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  7. Que bom entrar aqui e ver post novo. Que venham muito mais. Eu me considerava uma mãe suficientemente boa qndo conheci teu blog e aí pensei "posso fazer mais do que estou fazendo e aqui ela ainda me diz como" amo este blog e desejo muito que vc mantenha ele funcionando porque consulto ele com certa frequência.Vc me ajuda a ser uma mãe melhor e te agradeço por isso. Vejo que aqui vc esta semeando e vai encontrar solo fértil em que tais sementes brotarão. Como deve ter sido positivo pra estas mães que participaram junto com vc destes grupos que vc citou por ter alguém tao disposta a compartilhar. Vc faz do mundo um lugar melhor. Obrigada !

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    1. Obrigada, Lorena, emocionada com seu feedback. Sobre as mães dos grupos, acho que ganhei mais com elas que elas comigo. Beijão.

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  8. Olá Luciana Teixeira sou de Portugal e nova neste blog mas estou apaixonada com o que li! Aplico o método domana um bebé de 1 ano e neste momento tenho algumas dúvidas que estão a dificultar aplicação do mesmo e penso que me pode ajudar! Pode me facultar o que endereço? Muito obrigada

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    1. Oi, Flávia! Já faz bastante tempo que não estudo ou pratico o método Doman. Tem coisas que acabo por esquecer detalhes, realmente. Acredito que o melhor lugar para você tirar suas dúvidas seja o grupo do Facebook "Como Ensinar Seu Bebê a Ler". Pode ser que as respostas as suas dúvidas já estejam lá, e você ainda terá a companhia de outros pais que estão praticando o método neste momento, e podem te ajudar com essas e outras dificuldades. Experimente! E boa sorte com seu miúdo!

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  9. Admiro cada vez mais!! Leio o blog há um tempão e fiquei muito feliz por você ter escrito novamente! Também bato palmas pra você, de pé!! Linda e sábia mulher! Inspiração para tantos, que Deus te abençoe cada vez mais!

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    1. Ana, que Deus te abençoe também. Na realidade escrevi tanto esses dias que sinto que não vou conseguir escrever por mais três anos hahaha Um abraço!

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  10. Queridas, estou comovida com os vários feedbacks positivos que recebi. Tenho pensado muito a respeito, e acho que este blog já cumpriu sua função. Ele foi um projeto em um momento especial da minha vida, e mesmo com várias falhas é símbolo da melhor parte desse momento.
    Mas agora tenho outros projetos, outros sonhos, que não cabem mais no formato deste blog. Não vou apagá-lo, mas decidi que não vou mesmo mais escrever aqui. Penso em outra proposta, talvez, que reflita melhor o momento que vivo agora, ainda voltada para a educação. Com respeito ao Ensino Domiciliar, em especial, acho que hoje já tem muita gente boa falando sobre isso, e gente que tem bastante experiência com o assunto. Eu tenho mais experiência com escola que com ensino domiciliar, não me sinto digna de ficar palpitando sobre homeschooling,ou sobre quem o pratica. Minha intenção em contribuir com o tema, quando ele ainda não era tão conhecido, era realmente de agregar e divulgar. Agora isso não é mais necessário, e há quem possa fazê-lo de maneira muito melhor que eu faria.
    Muito obrigada pela companhia de vocês nessa jornada! Espero poder continuar, de alguma forma, ajudando em outras jornadas também :-)

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  11. Bom dia!Conheci esse blog há 2 anos e tem me sido super util. Também sou professora, e por não ter com quem deixar a minha filha, ela frequenta um CEI desde os 2 anos. Como la nao escolarizam, desenvolvo a educação domiciliar e o resultado tem sido fantastico. Aos recém completos 4 anos ela ja escreve e começa a ler. Não fica atras dos alunos das melhores escolas. Por isso, eu te peço, não exclua o blog!Continue ajudando tantas mães educadoras e/ou professoras.

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